Já alguma vez cogitasses no por que muitas pessoas, ao se tornarem mais
velhas, parecem perder toda a alegria de viver? No momento, a maioria
de vós, que sois jovens, é relativamente feliz; tendes vossos pequenos
problemas, vossas preocupações sobre os exames, mas, apesar dessas
perturbações, há, em vossa vida, uma verdade? Há uma espontânea e
natural aceitação da vida, uma visão das coisas despreocupada e feliz.
Mas, por que razão, ao nos tornarmos mais velhos, parecemos perder
aquele ditoso pressentimento de algo transcendental, algo de mais
significativo? Por que tantos de nós, ao alcançarmos a chamada
maturidade, nos tornamos embotados, insensíveis à alegria, à beleza, ao
céu sereno e às maravilhas da terra?
Quando urna pessoa faz a si própria esta pergunta, muitas explicações
acodem-lhe ao espírito. Ternos muito interesse em nós mesmos - esta é
unia delas. Lutamos para nos tornarmos alguém, para alcançarmos e
conservarmos uma certa posição; temos filhos e outras
responsabilidades, e ternos de ganhar dinheiro. Todas essas coisas que
se agitam em nosso interior não tardam a deprimir-nos, e perdemos assim
a alegria de viver. Vede os rostos dos mais velhos, de vosso círculo de
conhecimentos, tristes que são, em maioria, e gastos, adoentados,
reservados, alheados, não raro neuróticos, sem um sorriso. Não
perguntais a vós mesmos por que são assim? E mesmo quando indagamos o
porquê disso, a maioria de nós parece satisfazer-se com meras
explicações.
Ontem de tarde vi um barco que subia o rio, de velas pandas, impelido
pelo vento oeste. Era um barco grande e transportava pesada carga de
lenha destinada à cidade. O sol se punha e a embarcação, desenhada
contra o céu, mostrava singular beleza. O barqueiro só tinha de
guiá-la; nenhum esforço era necessário, pois o vento fazia todo o
trabalho. Analogamente, se cada um de nós compreendesse o problema da
luta e do conflito, penso que poderíamos viver sem esforço, felizes, de
rosto sorridente.
Para mim, é o esforço que nos destrói, esse lutar em que despendemos
quase todos os momentos de nossa vida, Se observardes, ao redor de vós,
as pessoas mais velhas, podereis ver que para quase todos a vida é uma
série de batalhas consigo mesmos, com suas mulheres ou maridos, com seu
próximo, com a sociedade; e essa luta incessante dissipa energia. O
homem que vive alegre, verdadeiramente feliz, está livre de todo
esforço. Viver sem esforço não significa tornar-se estagnado, embotado,
estúpido; ao contrário, só os homens sensatos, altamente inteligentes,
estão verdadeiramente livres do esforço e da luta.
Mas, quando ouvimos falar em viver sem esforço, queremos viver assim,
desejamos alcançar um estado em que não haja luta nem conflito;
tornamo-lo, pois, esse estado, nosso alvo, nosso ideal, e por ele
lutamos; e desde esse momento perdemos a alegria de viver. Estamos de
novo empenhados em esforço, luta. O objeto da luta varia, mas toda luta
é essencialmente a mesma. Um luta pela promoção de reformas sociais, ou
para achar Deus, ou para criar melhores relações no lar ou com o
próximo; outro senta-se à margem do Ganges ou se prostra devotamente
aos pés de um guru - etc. etc. Tudo isso representa esforço, luta. O
importante, por conseguinte, não é o objeto da luta, porém, sim,
compreender a própria luta.
Ora, é possível a mente não apenas perceber ocasionalmente que não está
a lutar, porém estar a todas as horas completamente livre de esforço,
de modo que possa descobrir um estado de alegria em que não haja
nenhuma idéia de superioridade e inferioridade?
O caso é que a mente se sente inferior e por esta razão luta para "vir
a ser" alguma coisa, ou conciliar seus vários desejos contraditórios.
Mas, não estejamos a dar explicações sobre por que a mente tanto luta.
Todo homem que pensa sabe por que há luta, interior e exteriormente.
Nossa inveja, avidez, ambição, nosso espírito de competição, que nos
impele à mais impiedosa eficiência - são obviamente estes os fatores
que nos fazem lutar, no mundo atual ou no mundo do futuro. Por tanto,
não temos necessidade de estudar livros de psicologia para sabermos por
que lutamos; e o que certamente, tem importância é que descubramos se a
mente pode ficar totalmente livre de luta.
Afinal de contas, quando lutamos, o conflito é entre o que somos e o
que deveríamos ou desejamos ser. Pois bem; sem se procurarem
explicações, pode-se compreender todo esse processo de luta, de modo
que ele termine? Como aquele barco levado pelo vento, pode a mente
existir sem luta? A questão é esta, sem dúvida, é não como alcançar um
estado em que não haja luta. O próprio esforço para alcançar tal estado
é, em si, um processo de luta e, por conseguinte, aquele estado nunca
pode ser alcançado. Mas, se observardes, momento por momento, como a
mente se deixa colher nesse torvelinho de incessante luta - se
observardes simplesmente o fato, sem tentar alterá-lo, sem impor à
mente um certo estado que chamais "de paz" - vereis que,
espontaneamente, a mente deixará de lutar; e nesse estado ela é capaz
de aprender infinitamente. Aprender já não é, então, mero processo de
acumular conhecimentos, porém de descobrimento de extraordinárias
riquezas existentes além do alcance da mente; e para a mente que faz
tal descobrimento, há grande alegria.
Observai a vós mesmo, para verdes como lutais da manhã à noite, e como
vossa energia se dissipa nessa luta. Se tratardes apenas de explicar
por que lutais, ficareis perdido numa floresta de explicações e a luta
prosseguirá; mas se, ao contrário, observardes vossa mente, com
serenidade e sem dardes explicações; se deixardes simplesmente que
vossa mente esteja cônscia de sua própria luta, vereis que muito
depressa surgirá um estado no qual nenhuma luta haverá, um estado de
extraordinária vigilância. Nessa vigilância, não há idéia de "superior"
e "inferior", não há homem importante nem homem insignificante, não há
guru. Todos esses absurdos desapareceram, por que a mente está
inteiramente desperta; e a mente de todo desperta está cheia de
alegria...
...Afinal de contas, que é "contentamento" e o que é
"descontentamento"? "Descontentamento" é a luta pela consecução de
mais, e o "contentamento" a cessação dessa luta; mas, não se chega ao
contentamento, se se não compreende todo o "processo" relativo ao mais,
e por que razão a mente o exige.
Se sois mal sucedido num exame, por exemplo, tereis de repeti-lo, não é
verdade? Os exames, em qualquer circunstância, são uma coisa sumamente
deplorável, porquanto nada representam de significativo, já que não
revelaria o verdadeiro valor de vossa inteligência. Passar num exame é,
em grande parte, um "golpe" de memória ou, também, de sorte; mas, vós
lutais para passardes em vossos exames e, quando sois mal sucedidos,
perseverais nessa luta. O mesmo "processo" se verifica diariamente, na
vida da maioria de nós. Estamos lutando por alguma coisa e nunca nos
detivemos para investigar se essa coisa é digna de lutarmos por ela.
Nunca perguntamos a nós mesmos se ela merece nossos esforços e,
portanto, ainda não descobrimos que não os merece e que devemos
contrariar a opinião de nossos pais, da sociedade, de todos os mestres
e gurus. É só quando temos compreendido inteiramente o significado do
mais, que deixamos de pensar em termos de fracasso e de êxito.
Temos sempre medo de falhar, de cometer erros, não só nos exames, mas
também na vida. Cometer um erro é coisa terrível, porque seremos
criticados, censurados, por causa dele. Mas, afinal, por que não se
devem cometer erros? Toda gente, neste mundo, não vive cometendo erros?
E o mundo sairia da horrível confusão em que se encontra, se vós e eu
nunca cometêssemos um erro? Se tendes medo de cometer erros, nunca
aprendereis coisa alguma. Os mais velhos estão continuamente cometendo
erros, mas não querem que vós os cometais e, com isso vos sufocam toda
a iniciativa. Por quê? Porque temem que, pelo observar e investigar
todas as coisas, pelo experimentar e errar, acabeis descobrindo algo
por vós mesmo e trateis de emancipar-vos da autoridade de vossos pais,
da sociedade, da tradição. É por essa razão que vos acenam com o ideal
do êxito; e o êxito, como deveis ter notado, sempre se traduz em termos
de respeitabilidade. O próprio santo, em seus progressos para a chamada
perfeição espiritual, tem de tornar-se respeitável, porque, do
contrário, não encontrará "aceitação", não terá seguidores.
Estamos, pois, sempre pensando em termos de êxito, em termos de mais; e
o mais é encarecido pela sociedade respeitável. Por outras palavras, a
sociedade estabeleceu, com todo o esmero, um certo padrão, pelo qual
mede o vosso sucesso ou o vosso insucesso. Mas, se amais uma coisa e a
fazeis com todo o vosso ser, então já não vos importa o êxito nem o
fracasso. Nenhum homem inteligente se importa com isso. Mas,
infelizmente, são raros os homens inteligentes, e ninguém vos aponta
essas coisas. Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os
fatos e compreender o problema - e isso não significa pensar em termos
de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos, pensamos
nesses termos.
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