Se não há compreensão do sofrimento, não há sabedoria; o fim do
sofrimento é o começo da sabedoria. Para se compreender o sofrimento e
dele se ficar livre completamente, requer-se compreensão, não só do
sofrimento individual, particular, mas também do imenso sofrer humano.
Para mim, se não estamos totalmente livres do sofrimento, não pode
haver sabedoria e tampouco terá a mente possibilidade de investigar
deveras essa imensidade que se pode chamar Deus, ou outro nome qualquer.
A maioria de nós está sujeita ao sofrimento em diferentes formas: nas
relações, quando ocorre a morte de alguém, quando não podemos
preencher-nos e decaímos até nos reduzirmos a nada, ou quando tentamos
realizar algo, tornar-nos importantes e tudo redunda em completo
malogro. E temos também o “processo” do sofrimento no plano físico:
doença, cegueira, invalidez, paralisia, etc. Por toda a parte se
encontra essa coisa extraordinária chamada “sofrimento” — com a morte à
espreita em cada volta do caminho. E não sabemos enfrentar o sofrimento
e, assim, ou o divinizamos ou o racionalizamos, ou, ainda, tratamos de
evitá-lo. Ide a qualquer igreja cristã e vereis que lá se diviniza o
sofrimento, tornam-no algo de grandioso, de sagrado, e diz-se que só
pelo sofrimento, só pela mão de Cristo, o Crucificado, se pode
encontrar Deus. No Oriente, há métodos próprios de fuga, outras
maneiras de evitar o sofrimento; e é, para mim, um fato singular serem
tão raros — tanto no Oriente como no Ocidente — os que estão
verdadeiramente livres do sofrimento.
Seria maravilhoso se, no processo de nosso escutar — sem emocionalismo
nem sentimentalismo — o que nesta manhã se está dizendo, pudéssemos,
antes de sairmos daqui, compreender realmente o sofrimento e dele ficar
completamente livres; porque, então, já não haveria automistificação,
nem ilusões, nem ansiedades, nem medo, e o cérebro poderia funcionar
clara, penetrante, logicamente. E, então, talvez chegássemos a conhecer
o amor.
Ora, para se compreender o sofrimento é necessário investigar todo o
“processo” do tempo. Tempo é sofrimento, não só sofrimento do passado,
mas também sofrimento que inclui o futuro — a idéia de chegar, a
esperança de algum dia nos tornarmos algo, com sua inevitável sombra de
frustração. Para mim, essa idéia de consecução, de “vir a ser” algo no
futuro (e isso é tempo psicológico) representa o sofrer máximo — e não
o fato de perder um filho, de ser abandonado pela mulher ou marido, ou
de se não alcançar êxito na vida. Tudo isso me parece bastante trivial,
se se me permite em pregar esta palavra, que espero não seja mal
compreendida. Há um sofrimento muito mais profundo, que é o tempo
psicológico: o pensar que mudarei em anos futuros; que, se se me dá
tempo, me transformarei, quebrarei as cadeias do hábito, alcançarei a
liberdade, a sabedora, Deus. Tudo isso exige tempo — e este, para mim,
é o sofrimento máximo. Mas, para podermos aprofundar o problema, temos
de descobrir porque há sofrimento dentro em nós — essa onda de
sofrimento que nos envolve e aprisiona. Compreendendo, primeiramente, o
sofrimento existente em nós, talvez possamos também compreender o
sofrimento humano coletivo, o desespero da humanidade.
Porque sofremos? E tem fim o sofrimento? Há tantas maneiras de
sofrermos! A doença é uma forma de sofrimento — a incapacidade de
pensar, por debilidade do cérebro, e tantas outras variedades da dor
física. Temos, depois, todo o campo do sofrimento psicológico — o
sentimento de frustração, por não se poder realizar nada, ou a falta de
capacidade, de compreensão, de inteligência, e também esta constante
batalha dos desejos antagônicos, da autocontradição, com suas ânsias e
desesperos. E há, ainda, a idéia de nos transformarmos através do
tempo, de nos tornarmos melhores, mais nobres, mais sábios — idéia que
também encerra infinito sofrimento. E, por último, o sofrimento
ocasionado pela morte, o sofrimento da separação, do isolamento, o
sofrimento de nos vermos completamente sós, isolados e sem relação com
coisa alguma.
Todos conhecemos essas variadas formas de sofrimento. Os eruditos, os
intelectuais, os virtuosos, os religiosos de todo o mundo, vêem-se tão
torturados como nós pelo sofrimento, e se dele existe alguma saída,
ainda não a encontraram. Investigar bem profundamente em nós mesmos é
saber que esta é a primeira coisa que desejamos: pôr fim ao sofrimento;
mas não sabemos de que maneira começar. Estamos muito bem
familiarizados com o sofrimento, vemo-lo em outros e em nós mesmos, e
ele se acha no próprio ar que respiramos. Ide a qualquer parte,
recolhei-vos a um mosteiro, caminhai pelas ruas apinhadas — o
sofrimento está sempre presente, declarado ou oculto, expectante,
vigilante.
Ora, de que maneira enfrentamos o sofrimento? Que fazemos em relação a
ele? E como teremos possibilidade de nos libertarmos dele, não apenas
superficialmente, porém totalmente, de modo que se torne completamente
inexistente? Estar completamente livre de sofrimento não significa
ausência de sentimento, de amor, de compaixão, falta de bondade, de
compreensão de outrem. Pelo contrário, na completa liberdade, nesse
estado livre de sofrimento, não há indiferença. É uma liberdade que
traz grande sensibilidade, receptividade; e, como se alcança essa
liberdade? Todos conheceis o sofrimento, não lhe sois estranhos. Ele
está sempre presente. E como o enfrentais? Apenas superficialmente,
verbalmente?
Tende a bondade de seguir isto. Passo a passo, caminhemos juntos, até o
fim. Tentai, nesta manhã, escutar com atenção completa, estar bem
cônscios de vossas reações e penetrar profundamente, junto comigo, este
problema do sofrimento. Mas, isto não significa seguir-me — coisa
extremamente absurda. Mas se, juntos, pudermos compreender esta coisa,
investigá-la ampla e profundamente, então, talvez, ao sairdes daqui,
possais olhar para o céu e nunca mais serdes atingidos pelo sofrimento.
Então, não mais haverá medo; e, uma vez livres de todo temor, aquela
Imensidade poderá tornar-se vossa companheira.
Assim, como enfrentais o sofrimento? Parece-me que, em geral, o
enfrentamos muito superficialmente. Nossa educação, nossa instrução,
nosso conhecimento, as influências sociológicas a que estamos expostos
— tudo isso nos torna muito superficiais. A mente superficial é aquela
que se refugia na igreja, em alguma conclusão, conceito, crença ou
idéia. Tudo isso são refúgios para a mente em sofrimento. E, quando
nenhum refúgio encontrais, construís em torno de vós uma muralha e vos
tornais acrimoniosos, duros, indiferentes, ou buscais a fuga em alguma
reação neurótica, fácil. Todas essas fugas ao sofrimento impedem a
investigação mais aprofundada. Espero me estejais acompanhando, porque
é justamente isto o que faz a maioria de nós.
Pois bem; observai um cérebro superficial — ou mente; notai, por favor
que, quando digo “mente” ou “cérebro”, refiro-me à mesma coisa. Outro
dia estivemos considerando a distinção entre “mente” e “cérebro”, mas
tal distinção é só verbal, sem importância. Empregarei a palavra
“mente” e espero que sigais e compreendais o que se irá dizer.
A mente superficial não pode resolver este problema do sofrimento,
porque sempre procura evitar o sofrimento. Foge ao fato — o sofrimento
— por meio de uma reação fácil e imediata. Se tendes uma forte dor de
dentes, naturalmente logo tratais de procurar o dentista, porque
desejais livrar-vos dessa dor física; e isso é uma reação normal e
correta. Mas, a dor psicológica é muito mais profunda e sutil, e não há
médico, não há psicólogo, não há nada que vos possa extingui-la. No
entanto, vossa reação instintiva é fugir dela. Tratais de ligar o
rádio, de ver televisão, de ir ao cinema — sabeis quantas distrações a
civilização moderna inventou. Qualquer espécie de entretenimento, seja
uma cerimônia religiosa, seja uma partida de futebol, é essencialmente
a mesma coisa, mera fuga à vossa aflição, ao vosso vazio interior; e é
isto o que estamos fazendo em toda a parte: buscando em diferentes
formas de entretenimento o auto-esquecimento.
E, também, é a mente superficial que procura explicações. Diz: “Desejo
saber porque sofro. Porque devo eu sofrer, e vós não?” Está cônscia de
não ter praticado, na vida, nenhuma iniqüidade e, assim, aceita a
teoria de vidas passadas e a idéia disso que na Índia se chama karma —
causa e efeito. Diz ela: “Pratiquei antes alguma ação injusta, e agora
estou passando por ela”; ou “Estou agora fazendo algo de bom, e
colherei no futuro os correspondentes benefícios”. É assim que a mente
superficial se deixa enredar nas explicações.
Observai, por favor, vossa própria mente, observai como vos livrais de
vossos sofrimentos com explicações, como vos absorveis no trabalho, em
idéias, ou vos apegais à crença em Deus ou numa vida futura. E, se
nenhuma explicação ou crença tiver sido satisfatória, recorreis à
bebida, ao sexo, ou vos tornais mordaz, duro, acrimonioso, melindroso.
Consciente ou inconscientemente, é isso o que de fato ocorre com cada
um de nós. Mas, a ferida do sofrimento é muito profunda. Ela vem sendo
transmitida de geração em geração, de pais a filhos, e a mente
superficial nunca retira a atadura que cobre essa ferida: ela não sabe,
em verdade, o que é o sofrimento, não o conhece intimamente. Tem apenas
uma idéia a seu respeito. Tem uma imagem, um símbolo do sofrimento, mas
nunca se encontra com ele próprio; só se encontra com a palavra
“sofrimento”. Compreendeis? Ela conhece a palavra “sofrimento”, mas não
estou certo se conhece o sofrimento.
Conhecer a palavra “fome” e sentir realmente fome, são duas coisas
muito diferentes, não? Quando sentis fome, não vos satisfazeis com a
palavra “comida”. Quereis comida — o fato. Ora, quase todos nos
satisfazemos com palavras, símbolos, idéias, e com as nossas reações a
essas palavras, de modo que nunca estamos em intimidade com o fato.
Quando subitamente nos vemos frente-a-frente com o fato do sofrimento,
isso nos causa um choque, e nossa reação é a fuga a esse fato. Não sei
se já notastes isso em vós mesmo. Tende a bondade de observar o estado
de vossa própria mente, e não fiqueis meramente escutando as palavras
que estão sendo proferidas. Nunca nos encontramos com o fato, nunca
“vivemos com ele”. Vivemos com uma imagem, com a memória do que foi, e
não com o fato. Vivemos com uma reação.
Ora, se ao enfrentar o sofrimento a mente tem um motivo, isto é, se
deseja fazer algo a respeito do sofrimento, não é possível
compreendê-lo, assim como também não é possível haver amor, se há
motivo para amar. Entendeis? Em geral, temos um motivo quando encaramos
o sofrimento: desejamos fazer alguma coisa em relação a ele. Isto é,
suponhamos que eu tenha perdido alguém, por morte; profundamente,
psicologicamente, já não posso obter o que dessa pessoa desejava, e
vejo-me a sofrer. Se nenhum motivo tenho, ao olhar o sofrimento, ele é
ainda sofrimento, ou coisa totalmente diferente? Estais seguindo?
Digamos que meu filho morre, e eu estou a sofrer porque me vejo só.
Nele eu depositara todas as minhas esperanças e, agora, todo o meu
mundo desabou. Desejara estabelecer para mim próprio uma certa espécie
de imortalidade, uma continuidade, através de meu filho; ele deveria
herdar meu nome, meus haveres, continuar com o meu negócio, e o acabar
de tudo isso causou-me um choque. Ora, posso compreender o sofrimento
em que me acho, se algum motivo existe, que me impele a olhá-lo? E, se
existe, atrás do amor, algum motivo, isso é amor? Por favor, não
concordeis comigo: observai-vos, apenas. Por certo, não deve haver
motivo algum, se desejo compreender o sofrimento, se desejo descobrir a
profundeza plena e a significação do sofrimento — ou do amor, pois os
dois andam sempre juntos. A morte, o amor e o sofrimento são
inseparáveis, estão sempre juntos, e também os acompanha a criação;
mas, esta é outra questão, que examinaremos noutra oportunidade. Se
desejo compreender profundamente, completamente, o fato do sofrimento,
não posso ter um motivo a ditar minha reação ao fato. Só posso viver
com o fato e compreendê-lo, quando nenhum motivo tenho. Entendeis? Se
não, podeis fazer-me perguntas, depois, a respeito deste ponto.
Se vos amo porque podeis dar me alguma coisa — vosso corpo, vosso
dinheiro, vossa lisonja, vossa companhia o que quer que seja — isso por
certo, não e amor, e é claro que também vós obtendes algo de mim, e
essa permuta, para a maioria de nós se chama amor. Sei que encobrimos
isso com palavras bonitas, mas, atrás dessa fachada, está a ânsia de
ter, possuir, ser dono.
Agora, sofrimento não é autocompaixão? De certa maneira, fostes
despojado de alguma coisa, vossas relações com outro redundaram em
fracasso, não vos preenchestes no sentido de serdes reconhecido como
pessoa importante, em atividades de reforma social, em atividades
artísticas e tantas outras coisas mais — e todas as correspondentes
frivolidades; assim, há sofrimento. Compreender o sofrimento é viver
com ele, olhá-lo, conhecê-lo como realmente é; mas não tendes
possibilidade de conhecê-lo quando o olhais com um motivo — que supõe o
tempo. A mente superficial, incessantemente ocupada em melhorar-se, em
lastimar-se, em torturar-se numa dada relação; desejosa de libertar-se
do sofrimento sem enfrentar o fato — essa mente prosseguirá sofrendo
indefinidamente. O fato é que estais sozinho. Em virtude de vossa
educação, de vossas atividades, pensamentos e sentimentos, vos
isolastes profundamente em vosso interior e não sois capaz de viver com
esse extraordinário sentimento de solidão, não sabeis o que ele
significa, porque dele sempre vos abeirais com uma palavra que desperta
o medo.
Estais vendo, pois, a dificuldade — as maneiras sutis com que a mente
preparou suas vias de fuga, tornando-se incapaz de viver com essa coisa
extraordinária que chamamos “sofrimento”. Para se ser livre do
sofrimento, é necessário compreender, consciente e inconscientemente,
todo o seu ‘processo”, e isso só é possível vivendo-se com o fato,
olhando-o sem motivo. Deveis perceber as manhas de vossa mente, suas
fugas, as coisas aprazíveis a que estais apegado e as coisas
desagradáveis de que desejais livrar-vos com rapidez.
Cumpre observar o vazio, o embotamento e a estupidez da mente que só
trata de fugir. E pouca diferença faz, se se foge para Deus, para o
sexo, ou para a bebida, porquanto todas as fugas são essencialmente a
mesma coisa. Compreendeis?
Que sucede quando perdeis alguém, arrebatado pela morte? A reação
imediata á uma sensação de paralisia, e ao sairdes desse estado vos
encontrais com o sofrimento. Ora, que significa esta palavra —
“sofrimento”? — A camaradagem, os colóquios ditosos, os passeios e
tantas outras coisas agradáveis que fizestes e planejáveis fazer em
companhia um do outro — tudo isso vos foi arrebatado num segundo, e
ficastes vazio, desamparado, sozinho, É contra isso que estais
protestando, é contra isto que vossa mente se revolta: ter ficado a sós
consigo, isolada, vazia, sem amparo. Ora, o que verdadeiramente importa
é viver com esse vazio, com ele viver sem reação alguma, sem
racionalizá-lo, sem dele fugir com recorrer a médiuns espiritistas, à
doutrina da reencarnação, e outras futilidades que tais; viver com ele,
com todo o vosso ser. E se, passo a passo, examinardes bem o fato,
vereis que há um findar do sofrimento — um findar real, e não
simplesmente verbal, não o findar superficial, resultante de fuga, de
identificação com um conceito ou devotamento a uma idéia. Vereis que
nada há para proteger, porquanto a mente está toda vazia e já não reage
no sentido de preencher o seu vazio; e quando assim o sofrimento
termina completamente, tereis encetado uma outra jornada — jornada sem
fim e sem começo. Existe uma imensidade que ultrapassa todas as
medidas, mas nesse mundo não ingressareis sem a prévia e total extinção
do sofrimento.
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