Dissemos que íamos falar sobre um problema sobremodo complexo, ou seja:
Existe experiência religiosa, e que significa "meditação"? Observando,
podemos ver que, em todo o mundo, o homem sempre andou buscando uma
coisa existente além da morte, além dos seus problemas, uma coisa
duradoura, verdadeira, eterna. Deu-lhe o nome de "Deus", e outros mais;
e a maioria acredita em tal coisa, sem jamais tê-la experimentado.
Prometem algumas religiões que se crermos em certos rituais, dogmas e
salvadores, e se vivermos de um dado modo, encontraremos essa coisa
maravilhosa, que podemos denominar como quisermos. Os que a têm
"experimentado" diretamente fazem-no segundo o seu condicionamento, sua
crença, as influências ambientes e culturais a que estão submetidos.
A religião, evidentemente, perdeu o seu significado, pois sempre houve
guerras religiosas. Ela não resolve os nossos problemas. As religiões
separaram os povos. Poderão ter exercido determinada influência
civilizadora, mas não transformaram radicalmente o homem. Para
começarmos a investigar se existe a "experiência religiosa", e o que
tal experiência representa, e o porquê de a chamarmos "religiosa",
evidentemente, em primeiro lugar, se faz mister muita sinceridade. Isso
não significa ser sincero em obediência a algum princípio ou crença, ou
em relação a algum “compromisso”, mas, sim, ver as coisas tais quais
são, sem deformá-las, não só as coisas exteriores, senão também as
interiores; significa jamais iludir a si próprio. Porque é facílimo nos
iludirmos ao ansiarmos por uma dada experiência, religiosa ou de outra
natureza - pelo uso de drogas, etc. Estamos, então, sujeitos a nos
enredarmos em alguma espécie de ilusão.
Cabe-nos descobrir diretamente o que é "experiência religiosa".
Precisamos imbuir-nos de humildade e sinceridade, a fim de não
exigirmos para nós algum proveito ou ganho. Devemos, pois, atentar em
nossos próprios desejos, apegos e temores, para os compreendermos a
fundo, e não deixarmos a mente deformar-se de nenhuma maneira,
impedindo assim toda e qualquer ilusão. E, igualmente, cumpre indagar:
Que significa "experimentar"?
Não sei se já consideraram esta questão. Em regra, cansamo-nos das
habituais experiências cotidianas. De todas elas estamos fartos, e
quanto mais "sofisticada" ou intelectual a pessoa, tanto mais deseja
viver só no agora - o que quer que isso signifique - e inventar uma
filosofia do presente. A palavra "experiência" exprime passar por um
certo estado, do começo ao fim, e dá-lo por acabado. Mas, infelizmente,
para a maioria toda experiência deixa uma cicatriz, uma lembrança,
agradável ou desagradável, e nós desejamos conservar as aprazíveis. Se
ansiamos por qualquer espécie de experiência, espiritual, religiosa ou
transcendental, devemos primeiramente descobrir se existe tal
experiência, e também o que ela expressa. Se você passou por alguma e
não é capaz de reconhecê-la, ela deixa de existir. Um dos elementos
essenciais da experiência é o reconhecimento. E, havendo
reconhecimento, aquilo que se experimenta já é conhecido, já foi
sentido, pois, do contrário, não seria reconhecido.
Assim, ao falar de experiência religiosa, espiritual ou transcendental,
a pessoa deve tê-la conhecido antes, para ser capaz de reconhecer que
está experimentando algo diferente de uma experiência comum. Parece
lógico e verdadeiro que a mente deve ser capaz de reconhecer a
experiência, e o reconhecimento implica que a coisa já é conhecida e,
por conseguinte, não é nova.
Ao desejarmos experiências no terreno religioso, nós as desejamos
porque não resolvemos os nossos problemas, nossas ânsias, desesperos,
temores e tristezas de cada dia; por essa razão pretendemos algo
"mais". Nessa pretensão de “mais” encontra-se a ilusão. Isso
é bem lógico e verdadeiro, penso eu. Não digo que a lógica seja sempre
verdadeira, mas, quando, sã e equilibradamente, nos servimos da lógica
e da razão, conhecemos as limitações da razão. O desejo de experiências
mais amplas, profundas e fundamentais leva-nos a alongar ainda mais o
caminho do conhecido. Isso me parece claro, e espero estejamos em
comunhão, em "participação" uns com os outros.
Outrossim, investigando o terreno religioso, queremos descobrir o que é
a verdade, se existe uma realidade, se existe um estado mental fora do
tempo. A procura implica também uma entidade que busca. E que está
buscando essa entidade? Como saberá que o que descobre, em sua busca, é
verdadeiro? E, ainda, se ela encontra o verdadeiro - pelo menos o que
pensa ser o verdadeiro - o que ela encontra depende de seu
condicionamento, de seus conhecimentos, de suas anteriores
experiências; a busca torna-se, então, apenas mais uma projeção de suas
passadas esperanças, temores e anseios.
A mente que está investigando - não, buscando - deve achar-se
totalmente livre destas duas coisas: o desejo de experiência e a busca
da verdade. Isso porque, se estamos buscando, procuramos
diferentes instrutores, lemos livros vários, aderimos a vários cultos,
seguimos diversos gurus, etc, etc. - como quem percorre as vitrines das
lojas. Essa busca não tem nenhum significado.
Assim, ao investigarem esta questão - "Que é mente religiosa, e qual a
natureza da mente que já não tem experiência alguma" - vocês devem
saber se a mente pode libertar-se do desejo de experiência e pôr fim a
toda atividade de busca. Impende investigar, sem nenhum "motivo" ou
propósito, os fatos concernentes ao tempo e se existe um estado
atemporal. Tal investigação requer que não se tenha crença alguma, não
se esteja ligado a nenhuma religião ou organização dita espiritual, que
não se siga nenhum guru e, portanto, não se esteja sujeito a nenhuma
autoridade - inclusive, e principalmente, à deste orador. Porque as
pessoas são facilmente influenciáveis, excessivamente crédulas, ainda
que sejam "sofisticadas" e muito sabedoras; mas estão sempre ansiando
por alguma coisa, sempre a desejar e, por essa razão, crêem.
Assim, a mente que investiga para descobrir o que é religião deve
achar-se inteiramente livre de qualquer forma de crença, de qualquer
forma de medo; porque o medo, conforme já explicamos, é um elemento
deformador, produtivo de violência e agressão. Por conseguinte, ao
investigarmos o estado religioso e seu movimento, devemos achar-nos
livres do temor. Isso requer sinceridade e humildade.
No tocante à maioria de nós, a vaidade é um dos maiores impedimentos.
Porque, tendo lido muito, tendo assumido compromissos com algum guru
que anda a oferecer a sua filosofia, pensamos saber, pelo menos um
pouco, e esse é o começo da vaidade. Ao averiguarmos uma questão tão
importante como esta, precisamos fazê-lo com isenção, isto é, sem nada
sabermos a seu respeito. Vocês, de fato, não sabem nada, sabem? Ignoram
o que é a Verdade, o que é Deus - se tal entidade existe - o que é uma
mente religiosa. Lêem livros que tratam desta questão, da qual se fala
há milênios e estão vivendo com base no conhecimento e nas experiências
de outros, com base na propaganda. É necessário pôr tudo isso de lado,
se desejam descobrir alguma coisa; por conseguinte, a investigação
desta matéria é uma coisa sumamente "séria". Se desejam "brincar",
existem entretenimentos de toda espécie: os chamados espirituais, os de
cunho religioso; mas estes não têm valor algum para o homem de reflexão.
Para investigar o que é a mente religiosa, devemos estar livres de
nosso condicionamento, de nosso cristianismo, de nosso budismo, com a
respectiva propaganda de milhares de anos, a fim de que tenhamos
isenção para observar. Isso é sobremaneira difícil, porque tememos
achar-nos sós. Desejamos segurança, externa e internamente; por isso,
dependemos dos outros - do sacerdote, do guia espiritual, do guru que
diz: "Experimentei e, portanto, sei". Temos de estar completamente sós
- mas não, isolados. Há vasta diferença entre estar isolado e estar
completamente só, ser um todo não fracionado. O isolamento é um estado
de espírito em que cessaram as relações e, em nossa vida e atividades
diárias, erguemos (consciente ou inconscientemente) uma muralha em
torno de nós para não sofrermos danos. Esse isolamento, naturalmente,
impede qualquer espécie de relação. "Estar só" implica que a pessoa não
depende de outra, psicologicamente, não está apegada a ninguém; isso
não é dizer que não há, então, amor; o amor não é apego. "Estar só"
significa que, profundamente, interiormente, não existe nenhum
movimento de medo e, por conseguinte, nenhum movimento de conflito.
Se me acompanharam até aqui, podemos passar a investigar o que exprime
disciplina. Geralmente, disciplina é para nós uma espécie de
"treinamento", de repetição, um meio de vencer um obstáculo, ou de
resistir, reprimir, controlar, ajustar. Tudo isso está implicado na
palavra "disciplina", tal como a consideramos. Já o significado
etimológico da palavra é "aprender".
A mente que quer aprender deve ter curiosidade, vivo interesse; e,
quanto à mente que "já sabe", esta não tem possibilidade de aprender.
Disciplina, por conseguinte, significa aprender por que razão
controlamos, reprimimos, por que razão há medo, porque nos ajustamos,
comparamos e, conseqüentemente, nos vemos em conflito. O próprio ato de
aprender produz ordem; não a ordem criada segundo um plano ou padrão:
na mesma investigação da confusão, da desordem, existe ordem. Em regra,
vivemos confusos por dúzias de razões, que, por ora, não precisamos
examinar. Necessitamos aprender sobre a confusão, sobre a vida
desordenada que estamos levando; não nos cabe tratar de estabelecer a
ordem na confusão, ou na desordem, mas, sim, aprender sobre a confusão
e a desordem. Assim, enquanto aprendemos, nasce a ordem.
A ordem é uma coisa viva, e não uma coisa mecânica; a ordem, por certo,
é virtude. Na mente que se acha confusa, que se ajusta, que imita, não
existe ordem, porém conflito. E em conflito a mente se acha em desordem
e, deste modo, é sem virtude. Com esse investigar, com esse aprender,
vem a ordem, e a ordem é virtude. Observem-se, vejam o estado de
desordem em que se encontra sua vida - tão confusa e mecânica! Nesse
estado, queremos descobrir uma maneira moral de viver com ordem e com
uma mente sã. Como pode a pessoa confusa, que apenas sabe obedecer ou
imitar, ter qualquer espécie de ordem, qualquer espécie de virtude?
Examinando-se a moralidade social, vê-se que é totalmente imoral;
poderá ser "respeitável", mas o que é respeitável é quase sempre sem
ordem.
A ordem é necessária, porque só com ela é possível uma ação plena, e
ação é vida. Mas nossa ação produz desordem; há a ação política, a ação
religiosa, a ação atinente aos negócios, à família; todas essas ações
são fragmentárias e, portanto e naturalmente, contraditórias. Você é um
duro homem de negócios e, em casa, um meigo ente humano - pelo menos
mostra sê-lo; aí há contradição e, por conseguinte, desordem. A mente
em desordem não tem possibilidade de compreender o que é virtude. E,
hoje em dia, com a licença existente em todos os sentidos, não existe
ordem nem virtude. A mente religiosa necessita dessa ordem não
obediente a nenhum padrão ou plano estabelecido por você ou por outrem.
Mas, essa ordem, esse senso de retidão moral, só vem quando se
compreende a desordem, a confusão, o caos em que estamos vivendo.
O que acabamos de dizer visa a mostrar como lançar as bases da
meditação. Se não lançarmos essas bases, a meditação se tornará uma
fuga. Com essa espécie de meditação pode-se ficar brincando toda a
vida, e é isso o que a maioria das pessoas está fazendo: vivendo vidas
medíocres, confusas, desordenadas e encontrando maneiras de quietar a
mente, pois há tanta gente a prometer "uma mente quieta" (o que quer
que isso signifique).
Assim, para a mente ardorosa, pois trata-se de uma coisa importante e
não de uma brincadeira é necessário estar-se livre de toda crença, de
toda e qualquer ligação porque nós estamos ligados ao todo da vida, e
não a um fragmento dela. Em maioria estamos vinculados a alguma
revolução física, política, a um movimento religioso, a uma espécie de
vida espiritual, monástica, etc. Todas essas coisas são ligações
fragmentárias. Falamos sobre liberdade porque dela necessitamos para
ligarmos o nosso ser, a nossa energia, vitalidade e paixão à totalidade
da vida e não a uma de suas partes. Podemos então começar a investigar
o que significa meditar.
Não sei se já consideraram esta questão da meditação. Provavelmente
alguns de vocês têm "brincado de meditar", procurando controlar seus
pensamentos, seguir diferentes sistemas, mas isso não é meditação.
Temos de abrir mão de todos os sistemas que se nos têm oferecido:
sistema Zen, Meditação Transcendental, etc. - armadilhas trazidas da
Índia e da Ásia, nas quais tanta gente se deixa aprisionar. Precisamos
examinar a questão dos sistemas, dos métodos, e espero tenham vontade
de fazê-lo; porque nós estamos participando, todos juntos, no exame
deste problema.
Quando temos de seguir um sistema, que sucede à nossa mente? Que
implicam os sistemas e os métodos? Um guru. Não sei porque eles se
denominam, a si próprios, "gurus". Não encontro um termo
suficientemente forte com que reprovar a classe dos gurus, com sua
autoridade (eles pensam que sabem). O homem que diz "Eu sei", esse
homem não sabe. Ou, se ele diz "Experimentei a Verdade", desconfiem
dele decididamente. São estes os que oferecem os sistemas. Um sistema
envolve: praticar, seguir, repetir, alterar "o que
realmente é" e, por conseguinte, aumentar o conflito. Os sistemas
tornam a mente mecânica, não libertam ninguém; poderão prometer a
liberdade no fim de tudo, mas a liberdade está no começo e não no fim.
Se querem investigar a verdade sobre qualquer sistema, sem terem
liberdade, logo de início, acabarão então, fatalmente, adotando um
método e com a mente incapacitada de ser sutil, ágil, sensível. Podem,
pois, abandonar completamente todos os sistemas. O importante não é
controlar o pensamento, mas compreendê-lo, compreender as origens, os
começos do pensamento, que se acham na própria pessoa. Quer dizer, o
cérebro armazena "memórias" (isso vocês mesmos podem observar, e não
necessitam de ler livros sobre a matéria); se ele não armazenasse
"memórias", seria completamente incapaz de pensar. A memória é o
resultado da experiência, do conhecimento, de cada um ou da comunidade,
da família, da raça, etc. O pensamento brota daquele reservatório de
"lembranças". O pensamento, portanto, jamais é livre, é sempre velho;
não existe essa coisa chamada "liberdade de pensamento".
O pensamento, em si, não pode ser livre, embora fale sobre liberdade;
em si próprio, ele é o resultado das "memórias", experiências e
conhecimentos trazidos do passado; em conseqüência, ele é velho.
Todavia, necessitamos desse acervo de conhecimentos, pois, sem ele não
poderíamos funcionar, não poderíamos falar uns aos outros, não
poderíamos voltar para casa, etc. O conhecimento é de essencial
importância.
Compete-nos descobrir se, na meditação, o conhecimento tem fim, se nela
estamos livres do conhecido. Se a meditação é a continuação do
conhecimento, a continuação de tudo o que o homem acumulou, não há,
então, nela, liberdade. Só há liberdade se compreendemos a função do
conhecimento e, por conseguinte, dele nos achamos livres.
Estamos explorando o campo do conhecimento, para vermos quando deve
funcionar e quando se torna um empecilho à investigação mais profunda.
Se as células cerebrais continuam ativas, só podem funcionar no campo
do conhecimento. É só isso que o cérebro pode fazer, ou seja, funcionar
no campo da experiência, do conhecimento, no campo do tempo, vale
dizer, no passado. Meditação é descobrir se existe um campo
ainda não contaminado pelo conhecido.
Se, meditando, continuo com o que antes aprendi, com o que já sei,
estou então vivendo no passado, no campo de meu condicionamento. Nesse
campo não há liberdade. Posso adornar a prisão em que estou vivendo,
fazer coisas diversas dentro dela, mas há sempre uma limitação, uma
barreira. Cumpre, pois, descobrir se as células cerebrais, evolvidas
através de milênios, podem estar totalmente quietas e em
correspondência com uma dimensão desconhecida. Quer dizer, pode a mente
tornar-se tranqüila?
Foi sempre esse o problema das pessoas religiosas, através dos séculos,
reconhecendo que se necessita de total serenidade, porque só então se
pode ver. Se estamos a tagarelar, com o espírito em movimento, a correr
para todos os lados, é óbvio que não podemos ver nem escutar
totalmente. Assim, dizem as pessoas religiosas: "Controle a mente,
segure-a, coloque-a numa prisão"; não descobriram uma maneira de pôr a
mente num estado de completa e absoluta quietude. Dizem: "Não cedam a
nenhum desejo, não olhem para uma mulher, para os belos montes, para as
árvores e a beleza da Terra, porque se o fizerem, aquela beleza poderá
sugerir-lhes a lembrança de uma mulher ou um homem. Portanto,
controlem-se, perseverem, concentrem-se". Assim fazendo, os põem em
conflito e, desta maneira, haverá mais o que controlar, mais o que
superar. Sucede isso há milênios, por se ter percebido a necessidade de
uma mente tranqüila. Ora, como pode a mente serenar sem esforço, sem
controle, sem se lhe traçarem limites? No momento em que se pergunta
"como?", cria-se a necessidade de um sistema. Portanto, aqui não há
como".
Pode a mente quietar-se? Não sei o que irão fazer ao perceberem
verdadeiramente a necessidade de terem aquela mente que, estando
absolutamente quieta, se torna sobremodo sensível e sutil. Como pode
isso verificar-se? Esse é um problema de meditação, porque só essa é a
mentalidade religiosa. Só ela é capaz de ver o todo da vida como uma
unidade, como um movimento unitário, não fragmentado. Essa mentalidade,
por conseguinte, atua totalmente e não fragmentariamente, porque sua
ação emana da quietude completa.
A verdadeira base é uma vida de relação total, uma vida com ordem e,
por conseguinte, virtude, uma vida interior simples e, portanto,
austera - a austeridade da simplicidade profunda, própria da mente
isenta de conflito. Se lançarem essa base, facilmente, sem esforço
algum (porque, tão logo se introduz o esforço, há conflito), verão a
sua genuína valia. É, conseqüentemente, a percepção de "o que é" que
realiza a transformação radical.
Só a mente tranqüila pode compreender que, em sua quietude, há um
movimento bem diverso, de diferente dimensão, de outra qualidade. Esse
movimento, sendo inefável, não pode ser expresso em palavras. O que
pode ser descrito só nos leva até este ponto: o ponto em que, tendo
lançado a base correta, percebemos a necessidade, o valor e a beleza da
serenidade espiritual.
Para a maioria, a beleza se encontra em alguma coisa: um edifício, uma
nuvem, a forma de uma árvore, um lindo rosto. A beleza está "lá fora"
ou faz parte da natureza da mente em que não há atividade egocêntrica?
Porque a meditação, tão importante como a alegria que nela encontramos,
é a compreensão da beleza. A beleza, com efeito, é o total abandono do
“eu"; e os olhos que abandonaram o "eu" podem ver as árvores e sua
pujança, e a formosura de uma nuvem. Isso acontece quando não existe
nenhum centro constituído pelo "eu". É uma coisa que sucede a qualquer
de nós, - não é verdade? - ao vermos, por exemplo, uma majestosa
montanha que subitamente se nos descortina. Tudo foi varrido para o
lado, exceto aquela majestade. A montanha, a árvore, nos absorve
completamente.
Algo semelhante sucede a uma criança que se diverte com um brinquedo; o
brinquedo a absorve e, se se quebra, ela volta a suas ocupações
habituais, suas travessuras, seus choros. Conosco se dá a mesma coisa,
ao vermos a montanha ou a árvore solitária no alto de um monte, elas
nos absorvem. E nós desejamos absorver-nos em alguma coisa - numa
idéia, numa atividade, num compromisso, numa crença, ou noutra pessoa
tal qual a criança com seu brinquedo.
A beleza, pois, significa sensibilidade - um corpo sensível, graças a
uma alimentação adequada e a uma maneira correta de viver. A mente se
torna, então, naturalmente quieta. Não é possível aquietar a mente,
porque você é que é o causador de todos os males, você é que se acha
perturbado, ansioso, confuso. Como pode torná-la tranqüila? Mas, ao
compreender o que é quietude e o que é confusão, ao entender o que é
sofrimento e que é possível acabar com ele, e, também, ao compreender o
que é o prazer - então, dessa compreensão, surge uma mentalidade
serena; não precisamos buscá-la. Devemos partir do começo, e o primeiro
passo é o último passo. Eis o que é meditação.
INTERROGANTE: Faz o senhor a
apologia da beleza das montanhas, dos montes, do céu. Essa apologia não
é útil para o comum das pessoas. A apologia que serve é a da sordidez.
KRISHNAMURTI: Está bem; façamos
a apologia das ruas imundas de Nova Iorque, a apologia da miséria, da
pobreza, dos guetos, das guerras, para as quais cada um de nós
contribuiu. Vocês sentem de outro modo, porque se separaram, se
isolaram; portanto, não estando em relação com os outros, corrompem-se
e permitem que a corrupção se espalhe pelo mundo. Eis porque a
corrupção, a poluição, as guerras, o ódio, não podem ser sustados por
nenhum sistema político ou religioso, por nenhuma organização. Cumpre
haver transformação. Não o percebem? Precisam deixar de ser o que são.
Não à força de "querer"; meditação é expurgar a mente da vontade.
Verifica-se, então, uma ação de espécie inteiramente diferente.
INTERROGANTE: Se pudermos
alcançar o privilégio de nos conscientizarmos, como poderemos ajudar
àqueles que se acham condicionados, àqueles que abrigam um profundo
ressentimento?
KRISHNAMURTI: Permita-me
interrogá-lo porque usa a palavra “privilégio”. Que há de sagrado ou de
"privilegiado" em estar-se conscientizado? Essa é uma coisa natural,
não acha? - estar ciente. Se você tiver ciência de seu condicionamento,
da agitação, da sordidez, da miséria, da guerra, do ódio, existentes no
mundo - se de tudo isso estiver inteirado, estabelecerá uma relação tão
completa entre você - que ficará em relação com todos os outros entes
humanos. Verá, então, que não causará dano aos outros; eles é que
causam dano a si próprios. E, assim o que se pode fazer é
sair pelo mundo a pregar, a falar - mas não com o desejo de ajudá-los,
compreende? Esta é a coisa mais terrível que se pode dizer: “Quero
ajudar a outrem”. Quem é você, quem sou eu, para ajudar os outros?
Senhor, a beleza da árvore ou da flor não "deseja" ajudá-lo. A você é
que cabe olhar a sordidez ou a beleza; e se é incapaz de olhá-las,
trate de descobrir porque se tornou tão indiferente, tão insensível,
tão superficial e vazio. Se o descobrir, ver-se-á num estado em que a
vida fluirá como as águas, e você nada terá de fazer.
INTERROGANTE: Qual a relação
entre a percepção das coisas exatamente como são e a consciência?
KRISHNAMURTI: Você só conhece a
consciência pelo seu conteúdo, e esse conteúdo são as coisas que estão
sucedendo no mundo, do qual você faz parte. O esvaziar desse conteúdo
não significa ficar privado da consciência, senão ingressar numa
dimensão bem diferente. Sobre essa dimensão não é possível especular. O
que podemos fazer é tratarmos de descobrir se é possível
descondicionarmos a mente pela conscientização, pelo tornar-nos atentos.
INTERROGANTE: Eu próprio não
sei o que é o amor, o que é a Verdade, ou o que é Deus. Mas diz o
senhor que "amor é Deus", em vez de "Amor é Amor". Poderá explicar
porque diz "Amor é Deus"?
KRISHNAMURTI: Eu não disse que
amor é Deus.
INTERROGANTE: Lendo um de seus livros ...
KRISHNAMURTI: Desculpe a
interrupção ... não leia livros! Daquela palavra se tem usado e
abusado. Ela está "carregada" dos desesperos e esperanças do homem.
Você tem o seu Deus, e os comunistas têm o deles. Assim, se me permite
sugeri-lo, trate de descobrir o que é o Amor. Só descobrirá o que é o
amor, se souber o que ele não é. Não, se o souber intelectualmente,
porém, na vida real, afastando tudo o que o nega - o ciúme, a ambição,
a avidez; as divisões que diariamente se verificam; eu e você, nós e
eles, brancos e pretos. Infelizmente, as pessoas não o fazem, porque
isso requer energia e a energia só vem ao observarmos a realidade, sem
dela fugirmos. Vendo o que realmente é, então, observando-o, teremos a
energia necessária para transcendê-lo. Não podemos transcendê-lo, se
forcejamos para evitá-lo, para traduzi-lo ou superá-lo. Note
simplesmente "o que é", e descobrirá o que é amar. O amor não é prazer.
E sabe o que significa descobri-lo realmente, você mesmo, em seu
interior? Significa já não haver medo, nem apego, nem dependência, mas
tão somente uma relação isenta de qualquer divisão.
INTERROGANTE: Pode-me dizer
algo sobre a função do artista na sociedade? Desempenha ele algum papel
além do que lhe é atribuído?
KRISHNAMURTI: Que é um
artista? Aquele que pinta quadros, escreve poesias, aquele
que busca expressar-se por meio da pintura ou escrevendo livros ou
dramas? Porque separamos o artista de nós outros? Ou, porque
diferenciamos o intelectual dos demais indivíduos? Colocamos o
intelectual num certo nível, o artista noutro nível, talvez mais alto,
e o cientista num nível mais elevado ainda. Depois, perguntamos: "Qual
a função deles na sociedade?" Não se trata de saber qual é a função
deles, mas qual é a sua junto à coletividade. Porque foi você que criou
a desordem existente. Qual a sua função? Descubra-o. Isto é, trate de
descobrir porque vive dentro deste mundo de sordidez, ódio e aflição;
aparentemente, ele não o atinge.
Como vê, o senhor escutou estas palestras, participou em algumas das
coisas ditas e compreendeu - nós o esperamos - muitas delas. Com isso
pode tornar-se um "centro de relações corretas" e, portanto,
compete-lhe transformar esta terrível, corrupta e destrutiva sociedade.
INTERROGANTE: Poderá falar sobre o tempo psicológico?
KRISHNAMURTI: O tempo é velhice, o tempo é sofrimento, o tempo não
respeita ninguém. Há o tempo cronológico, medido pelo relógio. Este é
indispensável; do contrário, não poderíamos ter condução, viajar,
preparar uma refeição, etc. Mas, nós aceitamos outra espécie de tempo,
ou seja "amanhã eu serei, amanhã mudarei, futuramente me tornarei isto
ou aquilo"; psicologicamente, criamos este tempo - amanhã. Mas, existe
esse dia imediato? Eis uma pergunta que tememos fazer a sério. Porque
nós desejamos o amanhã: “amanhã terei o prazer de me encontrar com
você, amanhã eu compreenderei, minha vida será diferente. Amanhã
conhecerei a iluminação. E desse modo o futuro se torna a coisa mais
importante de nossa vida. Ontem você se deleitou sexualmente, fruiu
vários prazeres, e deseja repeti-los no dia seguinte, ou logo depois.
Faça a si próprio esta pergunta, e descubra a verdade respectiva:
"Existe realmente um amanhã fora do pensamento" que projeta o amanhã? O
futuro, com efeito, é uma invenção do pensamento. Se, psicologicamente,
não houvesse um amanhã, que aconteceria, hoje, em sua vida? Uma
tremenda revolução, não é? Sua ação se transformaria radicalmente, não
é assim? Você seria, agora, um ente total e não um ente projetado do
passado para o presente e daí para o futuro.
Tal equivale a viver e morrer todos os dias. Faça-o, e verá o que
exprime viver completamente hoje. E isso não é amor? Ninguém diz
"Amanhã amarei". Ou amamos ou não amamos. O amor não reside no tempo;
nele só está o amargor, porque o amargor, tal como o prazer, é
pensamento. Devemos, pois, descobrir o que é o tempo, e descobrir se
existe um "não amanhã" (no tomorrow). Isso é viver; há então
aquela vida eterna - porque, na Eternidade, não existe tempo.
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