Krishnamurti — Como é que sabemos que elas são neuróticas?
Uma pergunta muito séria, por isso reparemos bem. Como é que sei que
elas são neuróticas? Serei também neurótico por reconhecer que elas o
são?
Interlocutor — Sim.
Krishnamurti — Não diga que sim tão rapidamente! Vamos olhar bem para
isto, vamos escutá-lo, Que quer dizer neurótico? Ser um pouco estranho,
confuso, sem lucidez, ligeiramente desequilibrado. E infelizmente quase
todos somos ligeiramente desequilibrados. Não? Não tem bem a certeza...
Não somos desequilibrados quando somos Cristãos, Hindus, Budistas,
Comunistas, etc.? Não somos neuróticos quando nos fechamos nos nossos
problemas, erguendo um muro à nossa volta porque pensamos que somos
muito melhores do que outro qualquer? Não somos desequilibrados quando
a nossa vida está cheia de resistência — o «eu» e «tu», o «nós» e
«eles» e todas as outras divisões? Não somos neuróticos no emprego
quando queremos passar à frente do outro?
Como é então que a pessoa se torna neurótica? Será a sociedade que a
faz neurótica? Essa é a explicação mais simples — o meu pai, a minha
mãe, o meu vizinho, o governo, o exército, toda a gente me faz
neurótico. São todos responsáveis pelo meu desequilíbrio. E quando vou
ao psiquiatra em busca de ajuda, pobre homem, ele também é neurótico,
como eu... Não riam, por favor. É isto exatamente o que está a
acontecer no mundo.
Ora por que é que me torno neurótico? Tudo no mundo, tal como existe
agora, a sociedade, a família, os pais, os filhos — não têm amor.
Pensam que haveria guerras se tivessem amor? Julgam que haveria
governos que consideram perfeitamente certo que as pessoas sejam
mortas? Uma sociedade assim nunca existiria se as mães e os pais
amassem realmente os filhos, se quisessem o seu bem, se olhassem por
eles e os ensinassem a ser bondosos, a viver e a amar.
Essas são as pressões e as exigências exteriores que dão origem a esta
sociedade neurótica; há também impulsos e as pressões dentro de nós
mesmos, a violência inata que herdamos do passado — tudo isso ajuda a
criar esta neurose, este desequilíbrio. O fato é portanto este — somos
quase todos ligeiramente desequilibrados, ou mais do que isso, e não
adianta culpar seja quem for. O fato é que psiquicamente não se é
equilibrado — mentalmente, sexualmente, de todas as maneiras, estamos
desequilibrados. Mas o importante é a pessoa tomar consciência disso,
saber que não é equilibrada, não «como» tornar-se equilibrada. Uma
mente neurótica não pode fazer-se equilibrada, mas se não tiver chegado
ao extremo da neurose, se ainda conservar algum equilíbrio, é capaz de
se observar a si própria. A pessoa pode então estar atenta ao que faz,
ao que diz, ao que pensa, à maneira como anda, como está sentada, como
come, observando constantemente, mas sem corrigir.
Se se observar dessa maneira sem qualquer escolha, então, dessa
observação profunda surgirá um ser humano são e equilibrado; então não
mais se será neurótico. Uma mente equilibrada é sábia, e não moldada
por juízo e opiniões.
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