CONSIDERO importante compreender a relação que deve estabelecer-se
entre um orador e seus ouvintes, entre mim e vós, porquanto eu não
estou representando a Índia nem filosofia indiana, e tampouco vou falar
sobre os ideais e doutrinas do Oriente. A meu ver, nossos problemas
humanos, quer sejamos orientais, quer ocidentais, são idênticos. Cada
um de nós pode ter costumes diferentes, diferentes hábitos, diferentes
valores e pensamentos, mas, fundamentalmente, sinto que temos todos os
mesmos problemas.
Muitos são os nossos problemas, não é verdade? — problemas sociais,
econômicos e, mais especialmente, talvez, problemas religiosos; e
atualmente todos nos aplicamos a eles de diferentes maneiras.
Consideramo-los, apenas, parcialmente, como cristãos, como hinduístas,
comunistas, ou seja, o que for, ou os separamos como problemas
orientais ou ocidentais. E, por considerarmos os nossos problemas
parcialmente, com essas diferentes formas de condicionamento, parece-me
que não os estamos compreendendo. Creio que a maneira de considerar o
problema é muito mais significativa do que o próprio problema e que, se
pudéssemos aplicar-nos às nossas numerosas dificuldades sem nenhuma
espécie de condicionamento ou preconceito, chegaríamos, provavelmente,
a compreendê-los a fundo.
Assim sendo, permito-me salientar quanto é importante descobrirmos por
nós mesmos, cada um de nós, a maneira como estamos tentando resolver os
numerosos problemas humanos que nos assediam; porque, se a esse
respeito não estivermos bem esclarecidos, então, penso eu, por mais que
nos empenhemos para compreender os complexos problemas da vida e toda a
confusão e contradição em que nos vemos envolvidos, nunca o
conseguiremos. Por isso mesmo, bem valeria a pena, parece-me,
examinarmos as crenças, os preconceitos, os dogmas e as idéias que, de
diferentes maneiras, estão agora corrompendo a mente e impedindo-a de
ser livre para descobrir o que é a verdade, a realidade, Deus, ou como
quiserdes chamá-lo. E devo afiançar-vos que se necessita de um
interesse extraordinário para tal fazer — para descobrirmos, no
decorrer desta palestra, os numerosos obstáculos à compreensão e
percebermos como a mente — o único instrumento de descobrimento com que
contamos — está embotada em virtude de tantos pensamentos, emoções,
temores, hábitos e condicionamentos que compõem a sua estrutura.
Para descobrirmos tudo isso, considero essencial não escutar o que se
está dizendo como se se tratasse de mera conferência ou discurso — pois
não é nada disso — porém, antes, acompanhar, cada um, enquanto vou
falando, as reações de sua própria mente. Pois o importante,
naturalmente, é compreendermos o verdadeiro funcionamento de nossa
mente. O mero concordar ou discordar não cria a compreensão; cria só
confusão e contradição, não é verdade? Mas se, ao contrário, pudermos
acompanhar, paciente e inteligentemente, o que se está dizendo, sem
julgar, sem comparar, sem concordar ou discordar, de modo que vejamos a
mente funcionar, então, talvez, descobriremos por nós mesmos a maneira
de considerarmos os nossos inúmeros problemas.
Nosso pensar se tornou dependente de nosso ambiente, porque estamos
atados por inúmeros preconceitos — preconceitos nacionalistas,
ideológicos, religiosos, etc. Estamos sempre a buscar segurança, a
buscar algum meio de confiarmos em nós mesmos, tanto interior como
exteriormente, não é exato? E quer-me parecer que enquanto estivermos
empenhados nessa busca de segurança, de confiança em nós mesmos, de
certeza, não estaremos livres para examinar os nossos problemas e
descobrir se é possível dar-lhes solução definitiva. Por certo, só
quando compreendemos a nós mesmos, quando observamos o nosso próprio
processo mental — o que, afinal, é auto- conhecimento — só então existe
a possibilidade de descobrirmos por nós mesmos o que é verdadeiro, o
que é a realidade. Para isso, não há necessidade de instrutor, de guia,
de escrituras, de nenhuma autoridade, enfim. O descobrir e compreender
os movimentos de nosso pensar e de nosso sentir dá-nos a possibilidade
de resolver nossos próprios problemas, que são também problemas sociais.
Mas é muito difícil pensarmos sem ser de determinada maneira, sem ser
de acordo com determinado conjunto de valores, dogmas, crenças ou
teorias. Tanto ansiamos por uma solução aos nossos problemas, que nunca
nos detemos para considerar se o instrumento de que nos estamos
servindo — a mente, minha e vossa — está verdadeiramente livre para
investigar. A mente repleta de conhecimentos, crenças, teorias, não
está, por certo, livre para investigar o verdadeiro. Mas, se pudermos
compreender e dissolver o condicionamento, os preconceitos e dogmas que
nos estão enevoando a mente, talvez então esta se torne livre para
descobrir, pois, assim, a própria verdade atuará sobre o problema, em
vez de ficar a mente lutando por uma solução por meio de seu próprio
condicionamento — que não pode levá-la a parte alguma.
Eis porque acho tão importante saber escutar. Mui poucos de nós somos
capazes de escutar verdadeiramente; mui poucos dentre nós ouvimos ou
vemos as coisas com verdadeira clareza, porque tudo o que observamos ou
ouvimos é imediatamente interpretado, traduzido pela mente, de acordo
com nossas próprias idéias e idiossincrasias. Pensamos estar
compreendendo, mas não estamos, por certo. De tal maneira estamos sendo
distraídos por nossas opiniões e conhecimentos, pelo aprovar ou
reprovar, que nunca vemos o problema como ele de fato é. Mas, se
pudermos desembaraçar-nos de nossos peculiares pontos-de-vista e,
escutando, seguindo o funcionamento da mente, perceber o fato tal qual
é, acho que veremos então manifestar-se um processo completamente
diferente, o qual nos habilitará a considerar os nossos problemas com
plena liberdade e clareza.
Por essa razão, creio necessário escutar totalmente. Atualmente,
escutamos apenas com uma parte de nossa mente, sendo-nos dificílimo
dispensar atenção completa não só ao que se está dizendo agora, mas a
tudo que se nos depara na vida. Temos problemas inúmeros — os problemas
religiosos, sociais, econômicos, e mais os problemas da vida, da
subsistência, da morte; e quer-me parecer que o próprio processo de
nosso pensar está aumentando esses problemas. O modo como funciona o
nosso pensar — nossa mente é condicionado, não? Condicionado pela
religião em que fomos criados, por nossa nacionalidade, nossos
pontos-de-vista políticos, nossas circunstâncias econômicas, e
inumeráveis outras influências. Tudo isso concorreu para moldar a nossa
mente de uma determinada maneira; e, se desejarmos libertar-nos dessa
pressão, dessa influência, então, decerto, é inútil tratarmos meramente
de abandonar uma dada forma de autoridade para procurarmos uma forma
nova, um método novo, uma nova crença. É isso, no entanto, o que sempre
estamos fazendo. Por certo, só a mente que está livre, por inteiro, de
toda e qualquer autoridade, consciente ou inconsciente, é capaz de
descobrir se existe uma realidade que transcende as meras concepções
mentais. A mente livra é aquela que se libertou de toda crença, de
todos os padrões de pensamento, conscientes ou inconscientes. Na
atualidade, todo o nosso pensar resulta de nosso especial
condicionamento, nossas experiências, lembranças, temores, esperanças,
acumulados através do tempo. Em tais condições, é bem óbvio que a mente
não está livre. Só existe liberdade quando o processo do pensamento, no
seu todo, foi compreendido e transcendido; e só então se torna possível
o surgir de uma mente nova, regenerada.
Assim sendo, pode a mente libertar-se de seu próprio condicionamento,
para considerar de maneira nova os seus problemas? Pode ser livre a
mente? — não como cristã, hinduísta, sueca, comunista, ou seja, o que
for, nem puramente no sentido de abandonar um dado ideal, crença ou
hábito, porém livre para descobrir o que significa transcender todas as
influências e contradições, mentais e sociais.
Como está reagindo agora a mente? Reagir, concordando ou discordando, é
de todo vão, uma vez que tal reação é produzida por nosso próprio
fundo, nosso acervo de saber e de crença. Mas, “experimentar” o que se
está passando em nós mesmos, isso parece-me verdadeiramente proveitoso.
Ora, pode-se investigar inteligentemente, pacientemente, para descobrir
se há alguma possibilidade de libertarmos a nossa mente de todo
parcialismo, toda influência, habilitando-a, assim, a transcender suas
próprias atividades? Do contrário, nossa vida será sempre muito
superficial, vazia — e talvez quase todos estejamos nesse caso. Temos
um enorme acervo de informações, conhecimentos, inumeráveis crenças,
credos, dogmas, mas na realidade somos muito superficiais e infelizes.
Embora, em certos países, externamente, se haja estabelecido a
segurança econômica, contudo, interiormente, psicologicamente, o
indivíduo permanece incerto, inseguro. E a segurança exterior, física,
que todos os entes humanos, sem distinção de nacionalidade, desejam e
necessitam, torna-se impossível para todos nós, em virtude de nossa
ânsia de segurança interior, psicológica. A própria ânsia de segurança
interior impede a compreensão. Só quando a mente já não é ambiciosa, já
não busca nem exige nada, está livre para descobrir o que é verdadeiro,
o que é Deus.
É por esta razão que tanto importa compreendermos a nós mesmos — não
analiticamente, ou seja, uma parte da mente analisando outra parte,
pois daí só pode resultar mais confusão — porém verdadeiramente
cônscios, sem julgar nem condenar, da maneira como agimos, das palavras
que empregamos, de todas as nossas variadas emoções, nossos recônditos
pensamentos. Se formos capazes de nos olharmos sem paixão, de modo que
as emoções ocultas não sejam recalcadas, porém trazidas à luz e
compreendidas, nossa mente se tornará então deveras serena; e só aí
encontraremos a possibilidade de viver a pleno a vida.
São essas as coisas que penso devemos sondar juntos. Podemos ajudar-nos
uns aos outros a achar a porta da Realidade, mas cada um tem de abrir a
si mesmo essa porta; tal é, a meu ver, a única ação positiva.
Assim sendo, urge operar-se, em cada um de nós, uma revolução interior,
uma revolução religiosa; porque só esta revolução religiosa poderá
mudar a direção de nosso pensar. E para que possa produzir-se esta
revolução, é necessária a silenciosa observação das reações da mente,
sem julgamento, condenação ou comparação. A mente é agora estéril, não
criadora, no legitimo sentido da palavra, não é exato? Ela é uma coisa
artificial, constituída das acumulações da memória. Enquanto existir
inveja, ambição, busca interesseira, não pode haver o esta do criador.
Parece-me, por conseguinte, que o mais que podemos fazer é
compreendermos a nós mesmos, as operações de nossa mente; e esse
processo de compreensão representa uma enorme tarefa. Não é coisa que
se faz esporadicamente, que se deixa para mais tarde, para amanhã, mas
que deve ser feita todos os dias, a cada momento, continuamente.
Compreender a si mesmo é estar cônscio, espontaneamente, naturalmente,
dos movimentos do pensar. Começa-se, assim, a perceber todos os ocultos
motivos e intenções que nutrem os nossos pensamentos, e resulta, daí, a
libertação da mente dos processos que a tolhem e limitam. Ela está
então tranqüila; nessa tranqüilidade pode manifestar-se, de modo
espontâneo, algo que não é produto da mente.
Há algumas perguntas para responder e acho que seria bem proveitoso
apurarmos o que se entende por “fazer uma pergunta” e o que se entende
por “obter uma resposta”. Afinal de contas, existem respostas para as
momentosas e fundamentais questões do amor, da vida, da morte, da
existência futura? Só fazemos perguntas quando nos vemos confusos, não
é verdade? Por conseguinte, as respostas, também, terão de ser
confusas. Assim sendo, muito importa não ficarmos dependendo das
respostas de outros, e examinarmos o problema diretamente, por nós
mesmos. A dificuldade, pois, não está em fazer a pergunta ou obter a
resposta, mas, sim, em ver o problema claramente. E quando há clareza,
já não há necessidade de perguntas nem de respostas.
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