Origina-se, certamente, da ansiedade, do desejo expansivo e
transbordante, não é? Percepção, contato, sensação, dão origem à
reflexão; então a ânsia gera estes desejos expansivos nos quais o
pensamento fica embaraçado. Assim dá principio ao conflito dos opostos,
o agradável e o doloroso, o transitório e o permanente. Nossa
consciência está presa no conflito das oposições, da dor e do prazer,
das abstenções e identificações, do eu e do não-eu. O conteúdo da nossa
consciência, que consideramos como o nosso ser inteiro, é composto
desses valores duplos e contraditórios, tanto mentais como emocionais.
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Observem vosso próprio processo de pensar e verificarão que nasce de
qualquer temor, da ansiedade, afeição, esperança, da sensação do que é
meu e do que não é. Em outras palavras, o pensamento está escravizado
pelo desejo insaciável. Este pensamento dependente divide-se em
superior e inferior, o consciente e o subconsciente, e há conflito
entre os dois. O consciente influenciado pelo subconsciente, cria esta
faculdade a que chamamos intelecto, a faculdade de discernir, de
discriminar, de escolher. A memória, a tradição, o valor imposto pela
sociedade, pela religião, e a experiência pessoal influenciam nosso
discernimento. O pensamento, em nossa vida diária, está ocupado com a
criação, a continuidade e a modificação da tradição. Desembaraçar-se do
conflito existente, impedi-lo de sugerir, e criar um estado no qual não
haverá conflito; vencer alguma tristeza que haja, evitar qualquer surto
futuro da tristeza, e encontrar a paz perdurável; este é o desejo da
maioria de nós, não é? A vontade de desejos expansivos, com seus
conflitos e dores; a vontade de renunciar; todas estas formas de
vontade ainda estão dentro da limitação da ansiedade. Se pudermos
compreender o pleno significado de todas essas formas de vontade, e
como elas procedem na vida, na ação, então, pelo percebimento intenso e
discernimento, há uma compreensão que não é o resultado do simples
controle, abstenção, ou renúncia. Esta compreensão é o resultado
natural do profundo conhecimento do processo da ansiedade nas suas
diferentes formas. Isto exige agudo interesse, do qual surge uma
concentração espontânea. A compreensão não é uma recompensa; nasce no
mesmo instante do percebimento.
Os desejos em expansão, com suas várias camadas de memórias, as
divisões do superior e inferior, e os diferentes tipos de vontade,
formam o conteúdo da nossa consciência. O intelecto, a faculdade de
discernir, de escolher, está influenciado pelo passado, e se
simplesmente confiarmos nessa faculdade para compreender, para amar,
então nossa compreensão, nosso amor, serão limitados. A realidade, ou
qualquer outro que se lhe queira dar, é para a maioria de nós, o
produto do intelecto ou da emoção e, assim, deve, inevitavelmente, ser
ilusão. Mas, se ficarmos vivamente apercebidos do processo da
ansiedade, a compreensão virá naturalmente ao ser. Este percebimento
não é auto-introspecção mórbida, mas uma viva, percepção alegre, na
qual o conflito da escolha não mais tem lugar. O conflito da escolha
surge quando o intelecto, com seus temores e limitações do “meu” e de
outros, do mérito e demérito, de fracasso e sucesso, começa a
projetar-se na solução de nossos problemas humanos. É da ansiedade, nas
suas diferentes formas, que precisamos ficar apercebidos; esta ânsia
não é para ser negada ou repelida, mas compreendida. Pela simples
abstenção ou renúncia o pensamento não se liberta do temor e de suas
limitações.
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