HO que é importante compreender-se o problema do descontentamento.
Talvez encontremos a solução correta de nossos enormes problemas se
pudermos investigar o significado profundo do descontentamento. Quase
todos nós estamos insatisfeitos com nós mesmos, nosso ambiente, nossas
idéias, nossas relações. Desejamos efetuar uma modificação. Há
descontentamento geral, do simples aldeão ao homem mais letrado - se
não está subordinado ao seu poder, se não é escravo da sua ciência.
Alastra-se por toda a parte uma insatisfação que nos leva a executar
toda sorte de ações, e queremos encontrar um caminho que nos conduza à
satisfação. Se estais insatisfeito, desejais encontrar
um caminho para a felicidade. Se estais batalhando dentro em vós mesmo,
aspirais a encontrar o caminho da paz. Estando insatisfeito,
descontente, desejais uma solução que seja satisfatória. Por
conseguinte, a mente está sempre a tatear, sempre a sondar, em busca da
Verdade - em busca da solução para o seu descontentamento. Uns
encontram a solução na satisfação própria, num alvo, num objetivo na
vida, por eles estabelecido; e tendo descoberto um meio por onde
encaminhar o seu desejo, pensam ter encontrado o contentamento.
O contentamento pode ser encontrado? A paz é uma coisa que possa ser
achada pelo processo do intelecto? A felicidade é coisa adquirível pela
compreensão ou pela criação do seu oposto? Esse sofrimento, esse
descontentamento é essencial em nossa vida? O fato é que estamos
descontentes com o que é, descontentes com as coisas que temos,
descontentes com o que somos; e o descontentamento surge por causa da
comparação. Estou descontente porque vejo que sois ilustrado, rico,
feliz, poderoso. É essa a causa do descontentamento? Ou vem à
existência o descontentamento quando estou em busca de um caminho por
onde possa afastar-me do que é? Se eu puder compreender o caminho do
descontentamento, talvez possa haver felicidade, talvez possa haver
satisfação. Não há caminho para a felicidade, para o contentamento.
Aquele contentamento e aquela felicidade não constituem um processo de
"estagnação". Pois, se me vejo descontente e desejo estar contente,
esse caminho me conduz ao contentamento, que é estagnação; e isso é o
que deseja a maioria de nós. Mas existe algum caminho?
Podemos investigar, podemos sondar a questão do descontentamento, sem
procurarmos criar o seu oposto, sem querermos alcançar o seu oposto?
Porque, afinal de contas, quando somos jovens, estamos descontentes com
a sociedade, tal como está constituída. Queremos reformá-la, produzir
uma modificação. Aderimos, assim, a uma sociedade, a um partido, um
grupo político ou associação religiosa. E logo o nosso descontentamento
se canaliza, e é refreado e destruído. Porque, nesse caso, estamos
interessados tão-somente em pôr em prática um método, um sistema, para
produzirmos um resultado e, em virtude disso, pomos fim ao nosso
descontentamento. Este não é um dos nossos maiores problemas? Como nos
satisfazemos facilmente!
O descontentamento não é essencial em nossa existência, relativamente a
qualquer questão, qualquer indagação, no sondar, no descobrir o que é o
Real, o que é a Verdade, o que é essencial na vida? Posso possuir em
mim esse flamejante descontentamento durante o tempo de colégio; mais
tarde, porém obtenho um emprego e lá se vai o descontentamento.
Torno-me satisfeito, luto para manter minha família, para ganhar a
vida, e, dessa maneira, o descontentamento se acalma, é destruído, e me
transformo numa entidade medíocre, satisfeita com as coisas da vida, e
não mais estou descontente. Entretanto, a chama tem de ser alimentada
desde o princípio até o fim, para que haja verdadeira investigação, o
verdadeiro sondar do problema relativo ao que é o descontentamento.
Porque a mente busca muito prontamente um narcótico que a ponha
satisfeita com suas virtudes, qualidades, idéias, ações, e estabelece
uma rotina na qual se aprisiona. Estamos muito familiarizados com esse
fato; o nosso problema, porém, não é o de como acalmar o
descontentamento, mas de como mantê-lo em combustão, ativo, cheio de
vitalidade. Todos os nossos livros religiosos, todos os nossos gurus,
todos os nossos sistemas políticos pacificam a mente, aquietam-na,
influem sobre ela para fazê-la arrefecer, pôr de parte o
descontentamento e ficar chafurdando nalguma forma de satisfação. E não
é essencial estar-se descontente, para se descobrir o que é verdadeiro?
Por que ficamos descontentes? - e o descontentamento produz revolução,
modificação, transformação? E só é possível a revolução quando
compreendemos a natureza do descontentamento? E com o que há
descontentamento? Que coisa é essa com a qual estamos descontentes? Se
puderdes investigar verdadeiramente esta questão, talvez vos seja
possível achar uma solução. Com que estamos descontentes? Ora, com o
que é. Esse "o que é" pode ser a ordem social, podem ser as relações,
pode ser o que somos, a coisa que somos essencialmente isto é, o feio,
os pensamentos inconstantes, as ambições, as frustrações e os temores
sem conta; isso é o que somos. Pensamos que, afastando-nos disso,
encontraremos uma solução para o nosso descontentamento. Por
conseguinte, estamos sempre em busca de um método, um meio de modificar
"o que é". É nisso que está interessada a nossa mente. Se me vejo
descontente e desejo encontrar o método, o meio de chegar ao
contentamento, fica o meu espírito ocupado com o meio, o método e a
prática do método, a fim de alcançar o contentamento. Assim, pois, já
não estamos interessados em manter vivas as brasas, em nutrir a flama
que arde e que se chama descontentamento. Não descobrimos o que existe
na base desse descontentamento. Interessa-nos, tão somente afastar-nos
dessa chama, dessa ânsia ardente.
Não há dúvida de que estamos descontentes com "o que é". E é
extraordinariamente difícil sondar "o que é" - a Realidade, e não "o
que deveria ser", sondar aquilo que sou momento por momento. Esse
indagar e sondar não visa ao "eu superior", mera fabricação da
mentalidade, mas somente ao que é. Isso é dificílimo, porquanto a nossa
mente nunca fica satisfeita, jamais fica contente quando examina o que
é. Quer sempre transformar o que é noutra coisa, - o que indica o
processo da condenação, da justificação ou da comparação. Se
observardes a vossa própria mente, vereis que quando ela se vê frente a
frente com o que é, logo o condena e compara com o que deveria ser; ou
justifica-o, etc., e desse modo afasta de si o que é, desembaraçando-se
dessa coisa que lhe causa perturbação, dor, ansiedade.
O descontentamento não é essencial? E não achais que não devemos
deixá-lo consumir-se, mas sempre nutri-lo, investigá-lo, sondá-lo, de
modo que, com a compreensão do que é, surja o contentamento? Este
contentamento não é o contentamento produzido por um sistema de
pensamento; é o contentamento que acompanha a compreensão do que é.
Esse contentamento não é produto da mente - da mente que está sempre
perturbada, agitada, que é incompleta, quando busca a paz, quando busca
um caminho que a leve para longe do que é. E desse modo, o espírito,
pela justificação, pela comparação, pelo julgamento, procura alterar o
que é e espera assim alcançar um estado em que nunca será perturbado,
em que estará calmo, no qual haverá tranqüilidade. E quando a mente se
vê perturbada por causa das condições sociais - pobreza, miséria,
degradação, angústias pavorosas - quando a mente percebe tudo isso e
deseja alterá-lo, logo se prende e enreda no método de alterar, no
sistema de alterar. Se o espírito, porém, é capaz de olhar o que é, sem
comparação e sem julgamento, sem o desejo de transformá-lo noutra
coisa, pode-se ver que surge uma espécie de contentamento não produzido
pela mente.
O contentamento que é produto da mente é fuga. É estéril. É coisa
morta. Mas há contentamento que não vem da mente, que surge com a
compreensão do que é, e no qual se verifica uma revolução profunda,
atingindo a sociedade e as relações individuais. O descontentamento,
pois, não deve ser aplacado, posto de parte, narcotizado por algum
sistema de pensamento. Ele é essencial. Cumpre mantê-lo vivo, ardente,
para podermos investigar as coisas.
Achamo-nos em conflito uns com os outros e nosso mundo está sendo
destruído. Há crise sobre crise, guerra após guerra; há fome, há
angústias; há os que são excessivamente ricos, revestidos de
respeitabilidade, e há os que são pobres. Para se resolverem esses
problemas, o que é necessário não é um novo sistema de pensamento, não
é uma nova revolução econômica, mas sim a compreensão do que é - o
descontentamento, o constante investigar do que é - da qual resultará
uma revolução de alcance infinitamente maior do que o da revolução de
idéias. E essa revolução é que se faz sumamente necessária para a
criação de uma civilização diferente, uma religião diferente, um
diferente estado de relação entre os homens.
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