"É a ambição, é algum desejo, é alguma esperança
no futuro que mantém o corpo movimentando-se. A palavra usada por
Gautama Buda para essa ambição, desejo ou esperança é tanha. Ela contém
todas essas coisas. Você está sempre buscando alguma coisa para
acontecer em sua vida; você não viveu ainda. O passado está vazio; você
sabe que ele foi um deserto. A única maneira para movimentar-se é
manter os olhos lá longe, em alguma estrela. Isso é apenas a sua
imaginação, mas é suficiente para manter o corpo em movimento.
Se nada aconteceu até agora, não há qualquer garantia de que acontecerá
no futuro. O amanhã está sempre aberto, e é o amanhã que mantém o corpo
e a mente em movimento. E não apenas durante uma vida. A compreensão
oriental é muito mais profunda que a ocidental a respeito dos
segredos internos.
Todos os místicos nascidos no Oriente podem discordar em todos os
outros pontos, mas em um ponto a concordância deles é absoluta, e esse
ponto é a reencarnação. Não é apenas em uma vida que você segue
movimentando-se por causa de alguns ou muitos desejos. Você segue
movimentando-se de uma vida para outra, de um útero para outro, mas a
razão é a mesma: o movimento significa que você tem alguma coisa no
futuro a ser alcançada.
O seu futuro está atraindo você. Você está fascinado por todas as
possibilidades que podem ser suas. Você não se acabou só porque o
passado foi vazio. O futuro pode ser mais completo, mais rico e melhor.
É essa esperança que está sempre ali e nunca morre. Todo dia você vê
essa esperança sendo decepcionada, por toda a sua vida você vê ela
sendo decepcionada, mas ainda assim, o futuro está aí, sempre
disponível, aberto e dando a você tantas chances quantas você queira.
Pode ocorrer, em meditação profunda, que você chegue a uma parada
completa, a um estado de não-movimento, à simples sensação de que não
há qualquer necessidade de se movimentar, nenhuma necessidade de se ir
a lugar algum, porque não há lugar algum para se ir. Você tem estado
correndo atrás de sombras por muitas vidas e até agora tudo tem provado
ser sem sentido, você nunca chegou a meta alguma.
Em meditação profunda, a percepção pode vir de que não há meta alguma e
que todo movimento é fútil. Se não há meta alguma, não há qualquer
necessidade de se movimentar, uma vez que todo movimento é orientado
por metas. Eles estão juntos. Se a meta desaparece de sua mente, você
vai sentir diminuindo a marcha em seu corpo e em sua mente. Um
relaxamento profundo vai se assentando. Esta é uma das mais belas
experiências. A proposta da meditação é, na verdade, trazê-lo a essa
parada completa, onde, pela primeira vez, você não está mais motivado
por qualquer desejo, por qualquer ambição, por qualquer anseio.
Pela primeira vez, o futuro terá desaparecido. Ele nunca existiu. Era
apenas a sua imaginação. O futuro é a sua projeção de desejos não
realizados. Quanto mais desejos não realizados você tiver, maior será o
seu futuro projetado. Quanto mais o seu ser não se realizar, mais ricos
sonhos você terá sobre o futuro. Mas isso existe apenas em sua mente.
Nós dividimos o tempo em 3: passado, presente e futuro. Mas é uma
divisão errada. O tempo consiste apenas no presente e a mente consiste
apenas no passado e no futuro. Você está misturando as duas coisas
juntas. A meditação lhe ajudará a dar clareza para dividi-los
exatamente como eles são. A mente é memória do passado e imaginação do
futuro. Mas o tempo em si mesmo é indivisível, é somente o presente.
Você nunca encontra o ontem e nunca encontra o amanhã. O que você, na
verdade, encontra sempre é o momento presente.
No momento em que você percebe isso, você começa a assentar em si
mesmo. Todo movimento é do lado de fora, todo movimento é extroversão.
Não-movimento é introversão, é ir para dentro, simplesmente
assentando-se no verdadeiro centro de seu ser... sem qualquer agitação,
sem qualquer pensamento, sem qualquer sonho e sem qualquer desejo.
Esse é na verdade o estado de meditação. A mente se foi com o
movimento. Ela era apenas um outro nome para movimento. Ela o mantém
ocupado e atarefado com o futuro, com o passado, com tudo, exceto com o
presente. Ela é muito relutante em vir para o presente. É por isso que
as pessoas sentem dificuldades para meditar.
A mente puxa você ou para o passado, onde ela é perfeitamente feliz, ou
para o futuro, porque somente no passado ou no futuro ela consegue
viver. O presente nada mais é do que a morte para a mente, mas a morte
para a mente é o começo de sua vida autêntica. A mente o mantém vivendo
uma vida não autêntica. Todo o seu desespero, toda a sua agonia, toda a
sua miséria são filhos de sua mente. Assim que o movimento pára, a
mente pára. De repente, você está aqui e agora. Pela primeira vez você
toca a Existência. Pela primeira vez você está acordado. O sonho da
mente, o sono da mente não mais estão aí.
Nesse momento de despertar, você se encontra. Não o ego que você
costumava pensar que era você, não a velha personalidade na qual você
sempre acreditou e com a qual você permaneceu identificado. Aquela
personalidade e aquele ego eram partes da mente. Com a mente, eles
desapareceram. Toda aquela cerração não está mais ali, mas uma
claridade limpa como cristal, uma transparência, um silêncio vivo e
cheio de paz. E surge uma alegria sutil e profunda como nunca você
conheceu igual. Você nem mesmo pode ter concebido ou sonhado tal
alegria.
Isso não é apenas o seu 'self', isso é o 'self' universal também. E
porque isso é também o 'self' universal, Gautama Buda decidiu chamar
essa experiência de 'não-self', simplesmente para enfatizar que você
não é mais. A Existência é, você já se foi. Agora o Todo assumiu a
direção. Você está consciente, pela primeira vez, consciente em
totalidade.
E novas coisas começam acontecer a você. Elas são exatamente o oposto
daquilo que a mente estava criando. No lugar da agonia, você tem
êxtase; no lugar da miséria, uma tremenda felicidade; no lugar do
desespero, você estará completamente tranqüilo; no lugar da sensação de
falta de sentido, pela primeira vez você verá a significância, a beleza
e a glória de tudo que a existência tem lhe dado. E sem qualquer
esforço de sua parte, um tremendo impulso surge para agradecer o Todo,
para estar grato, para dançar e cantar em gratidão.
Para mim, a única prece verdadeira é aquela que vem da gratidão, não
endereçada a um deus qualquer, ou para obter alguma coisa, mas
endereçada a toda a Existência por tudo aquilo que já foi dado a você.
Isso é tanto... De repente você vê que você não merece tudo isso. Você
jamais ganhou algo assim: toda essa beleza, todas essas bênçãos e todo
esse êxtase. Você nem consegue conceber que tenha ganho isso. Isso é
simplesmente um presente do além. Você apenas consegue curvar-se diante
disso, não diante de alguém em particular, mas simplesmente diante do
Todo que circunda você. Assim como um peixe é circundado pelo oceano,
você é circundado pelo Todo.
Você está dizendo: 'Durante o exercício do caminhar consciente no grupo
de Vipassana, hoje, eu observei que a minha velocidade foi diminuindo e
parou. Parecia não haver necessidade alguma de movimento. Para onde,
para quê? Simplesmente não mais havia qualquer meta.' Certamente não
existe meta. A Existência é suficiente em si mesma. Uma meta é
necessária somente para aqueles que estão se sentindo vazios. Uma vez
que você conheça a sua plenitude, você não tem qualquer espaço para
alguma meta dentro de você. Você não apenas está completo, você está
transbordando. E a questão de ir a algum lugar nem mesmo surge, porque
onde você estiver, você estará no Todo, onde você estiver, você estará
no mesmo oceano.
Então uma tremenda transformação surgirá em você.
Por todas as suas vidas passadas, num movimento contínuo, de um corpo
para outro corpo, de uma vida para outra vida, sempre estão aí os
mesmos desejos, a mesma cobiça, a mesma raiva, a mesma violência, a
mesma competição, a mesma inveja.
A palavra oriental para mundo é sansara. E sansara significa a roda.
Você segue movendo-se numa roda. Ela é a mesma roda. Ela não vai a
lugar algum. Você simplesmente está agarrado a algum raio da roda, e a
roda segue movendo-se. Você pensa que está chegando a algum
lugar, mas você não está chegando a lugar algum. Mas porque,
continuamente, você pensa que está chegando a algum lugar, você nunca
olha para dentro para ver que você já está onde você quer estar.
O lar, pelo qual você está procurando, está dentro de você. E o deus,
pelo qual você tem procurado, está dentro de você. Você é o maior
tesouro de consciência em toda esta Existência. No momento em que você
perceber a sua glória e esplendor, você verá a si mesmo na altura do
Everest no céu, e você nem conseguirá conceber que algo mais ainda
possa ser acrescentado. O seu preenchimento é tão completo que virá uma
parada absoluta, e essa parada se tornará uma explosão de iluminação,
de despertar da sua natureza búdica.
O que aconteceu a você é tremendamente belo. Permita que isso aconteça
mais e mais. Vá mais fundo nessa parada, vá ainda para mais longe do
movimento e você estará mais próximo de si. Não seja pego novamente na
teia da mente. Fique atento pois ela logo tentará lhe pegar. Você pode
ter tido uns poucos vislumbres, mas ela imediatamente tentará agarrar
você de volta e não lhe permitir mais do que pequenos vislumbres. De
novo um desejo surgirá, de novo o amanhã se tornará real, de novo o
futuro se tornará significante e o movimento e o processo de
pensamentos... E toda a mente estará de volta.
Aprofunde suas experiências. Deixe que elas aconteçam mais vezes. Esse
é o propósito de todas as meditações que estão acontecendo aqui:
trazê-lo a uma parada total. Então, de repente, a energia que estava se
movendo para fora, começa a se assentar internamente. Quando todas as
suas forças vitais estiverem centradas na verdadeira raiz de seu ser,
você começará a crescer numa nova direção.
Agora, isso não será um movimento, será um crescimento. Movimento é
sempre horizontal e crescimento é vertical. As árvores crescem
verticalmente, você se movimenta horizontalmente. O mundo é horizontal
e a espiritualidade é vertical.
Uma vez que as suas energias estejam todas concentradas nas raízes,
surgirão novos brotos, novas folhagens, novos ramos, e você começará a
mover-se para cima, em direção às estrelas. E esse não é o velho
movimento, este é um fenômeno totalmente diferente. O movimento
horizontal nós conhecemos, é quando dizemos que alguém está ficando
velho. O movimento vertical é quando nós dizemos que alguém está
crescendo.
Simplesmente tornar-se velho não irá levar você a lugar algum, a não
ser à morte e a uma nova vida com os velhos desejos novamente... o
mesmo círculo. Uma vez que a sua vida começa a expandir-se, ao invés de
movimentar-se, ela toma uma dimensão totalmente diferente, para cima,
contra a gravitação deste mundo, em direção ao céu aberto. E somente
nessa expansão, um dia, a sua potencialidade irá desabrochar.
No dia em que você vir as suas flores se abrindo e liberando sua
fragrância, você irá conhecer pela primeira vez alguma coisa que pode
ser chamada de espiritual. E isso não é uma meta. As árvores não estão
crescendo atrás de alguma meta, elas estão crescendo em direção ao seu
potencial, o qual é intrínseco, oculto nelas. Elas querem chegar a um
ponto onde aquilo que está oculto se torne disponível para toda a
existência, aquilo que está numa semente se torne uma flor.
A iluminação é o seu florescimento.
A meditação levará você ao ponto onde a sua existência tomará uma nova
dimensão, a dimensão da iluminação. Você pode chamar isso de
sat-chit-anand. "
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