Querido Osho,
Você nos disse que a mente se torna mais e mais quieta se meditamos
regularmente. No ano passado, quando eu estava morando na Europa, fora
de uma comuna, os pensamentos se tornaram mais e mais fortes durante
minhas meditações até eu começar a ficar amedrontada ao sentar.
Agora que eu estou com você novamente, este problema foi embora. Mas eu
me pergunto: como pode alguém ser uma sannyasin por dez anos, meditando
todos os dias, e ter uma mente que se torna mais e mais barulhenta?
“Sagarpriya, a
questão que você formulou tem muitas implicações. Primeiro, é preciso
entender que a sua mente é muito antiga – doze anos nada são comparados
à história da mente; é a história de todo o universo desde o exato
começo.
Ela tem trabalhado
por tanto tempo e tão eficientemente que os cientistas dizem que não
são capazes de criar um computador que possa competir com a mente
humana. E a mente humana está ocupando um pequeno espaço, no seu
crânio; os computadores deles estão ocupando grandes salas. Um
cientista calculou que seria necessário mais de um quilômetro quadrado
de espaço para um computador comparável à mente humana. A mente humana
é um milagre.
Sentada comigo, você
está sentada com um milagre ainda maior. Você está sentada com uma
não-mente. Naturalmente o silêncio se torna mais fácil, a meditação vem
por si mesma, assim como uma brisa fresca. Quando você fica só, a mente
é tudo o que você tem. Este problema continuará a acontecer, a menos
que sua meditação vá a uma tal profundidade que você tenha algo mais
valioso que a mente.
Comigo você pode ter
um vislumbre, só por um momento. E esse vislumbre cria o anseio por ter
aquele momento esticado pela eternidade. Ele é tão cheio de paz, tão
fresco, quem não gostaria disso?
Mas, quando você
volta para o mundo, existem apenas computadores andando por todos os
lados; você tem que se comunicar com computadores. Um psicólogo definiu
o corpo do homem como nada mais que um mecanismo para facilitar o
funcionamento da mente. O psicólogo está dizendo exatamente o
contrário: é a mente que está carregando você; todos o seu corpo está
funcionando só pelo bem da mente.
Assim, no momento em
que você vai para o mundo – isto aqui não é parte do mundo; nós estamos
tentando criar pequenas ilhas onde a mente não seja mais exigida como
um computador. Mas no mundo você precisará da mente. E o problema
continuará, Sagarpriya, até que você tenha algo mais que a mente. Ter
apenas um vislumbre de silêncio não é suficiente.
Você precisa de um
centramento, você precisa de uma percepção, você precisa exatamente da
iluminação – somente então você poderá permanecer no mundo, sem sua
mente funcionar, a menos que você queira usá-la.
A mente é um
mecanismo tremendamente valioso, um dos maiores milagres na biologia,
na evolução do homem. A mente é simplesmente inacreditável, a maneira
como ela funciona... Porque você nada sabe a respeito dela, embora ela
seja a sua mente. Você não sabe como ela acumula milhões de memórias.
Os cientistas
calcularam que uma simples mente humana pode conter todas as
bibliotecas do mundo. Ela pode memorizar tudo o que foi escrito ao
longo das eras. Essa é a capacidade; você pode usá-la, você pode não
usá-la.
E você não conhece
as bibliotecas. Apenas a Biblioteca do Museu Britânico tem livros
suficientes para dar três voltas em todo o mundo, se você colocar um
livro ao lado do outro, da maneira como você os coloca na prateleira da
biblioteca. E essa é apenas uma biblioteca! Moscou talvez tenha a maior
biblioteca, e todas as grandes universidades do mundo têm bibliotecas
semelhantes. Só na Índia existem cem universidades com bibliotecas
extraordinariamente grandes.
E a própria idéia de
que uma simples mente humana tem a capacidade de memorizar tudo o que
está escrito em todos os livros que existem em todo o mundo...Isso
simplesmente nos deixa perplexos, parece inacreditável.
Você não sabe o que
a sua mente está fazendo por você. A sua mente está regulando tudo em
seu corpo. De outra forma, como você pensa que por setenta ou oitenta
anos, ou mesmo por cem anos – e existem pessoas que tem até passado
disso; elas têm alcançado o aniversário de cento e cinqüenta anos, e
existem umas poucas centenas de pessoas na União Soviética que
ultrapassaram a idade de cento e oitenta anos.
Os cientistas dizem
que não há razão para o corpo morrer senão aos trezentos anos. É apenas
uma velha hipnose, autohipnose, que gerou a idéia predominante de que
você tem apenas setenta anos de vida. Isso vai fundo em sua
consciência, de que por volta dos setenta anos você começa a achar que
está desabando, que você já se foi.
E, de qualquer
maneira, com o tempo, na idade dos sessenta, você está aposentado e
nada existe para fazer. A morte parece ser um alívio, não um risco. Nós
não temos sido suficientemente capazes e humanos para oferecer uma
situação onde os nossos idosos possam ter alguma dignidade, algum
auto-respeito, algum orgulho. Nós não temos sido capazes de encontrar
dimensões onde eles possam contribuir para o mundo. E eles têm
experiência e certamente são capazes de contribuir bastante – o
suficiente para o auto-respeito deles, o suficiente para eles viverem e
não se sentirem como um fardo. (...)
Os cientistas dizem
que o corpo do homem tem a capacidade, pelo menos – isto é o mínimo –
de viver trezentos anos. Mas, por que o homem não vive tanto tempo?
Talvez o homem não saiba como viver, talvez ele não saiba como usar o
seu corpo, como usar a sua mente.
Sagarpriya, você tem
que entender duas coisas muito claramente: primeiro, a mente é um
grande milagre.
A existência não foi
capaz de criar algo maior que a sua mente. O seu funcionamento é tão
complexo que deixa perplexos os maiores cientistas. Ela administra todo
o seu corpo que é um sistema muito complexo. Quem cuida para que uma
certa parte de seu sangue vá para o cérebro? Quem cuida para que parte
de seu alimento se transforme em ossos, se transforme em sangue, se
torne pele? Quem cuida para que parte de sua pele se torne unhas, que
parte de sua pele se torne olhos e orelhas?
Certamente você não
está administrando isso, e eu não vejo qualquer outro administrador por
perto. Assim, primeiro você tem que estar agradecida à mente. Este é o
primeiro passo para ir além da mente, não como uma inimiga, mas como
uma amiga. Ao me ouvir dizer continuamente que você tem que ir além da
mente, você pode cair num mal entendido. Eu tenho tremendo respeito
pela mente, não existe maneira de retribuir a nossa gratidão.
Assim, a primeira
coisa é: meditação não é contra a mente, ela é além da mente. E além
não é equivalente a contra.
Esse mal entendido
mais se espalha quanto mais pessoas falam sobre meditação,
particularmente pessoas que não compreendem meditação – aquelas que já
leram a respeito, aquelas que já ouviram a respeito, aquelas que
conhecem as técnicas... E as técnicas são simples; você as pode ler,
elas estão disponíveis em muitas escrituras. E agora existem livros que
ensinam como fazer qualquer coisa – mecânica de carro, engenharia
elétrica, qualquer coisa – você pergunta e o vendedor de livro está
pronto para lhe dar um livro sobre como fazer aquilo.
Um mestre nunca se
tornará irrelevante por uma simples razão: quem lhe ensinará a amar a
mente e ir além dela? A amar e respeitar seu corpo? A ter gratidão para
com sua mente e seu funcionamento extraordinário e milagroso? Isso
criará uma grande amizade, uma ponte entre você e a mente.
Com o aprofundamento
dessa amizade, sempre que você estiver meditando, a mente não
perturbará, porque a sua meditação não é contra ela. Na verdade, é a
sua própria realização, é o seu florescimento maior. Ir além dela não é
uma atitude hostil, mas uma evolução amigável.
Assim, isso deve ser
a base de todo meditador: não ser um lutador. Se lutar, talvez você
seja capaz de aquietar a mente por algum tempo, mas isso não será uma
vitória. A mente voltará de novo, você precisará dela. Você não
consegue viver sem ela; você não consegue existir no mundo sem ela.
E se você criar um
relacionamento amigável com a mente, uma ponte amorosa, ao invés de ser
um obstáculo para a meditação, ela começará a se tornar uma ajuda. Ela
protege o seu silêncio, porque aquele silêncio é também um tesouro
dela, ele não é apenas seu. Ela se torna um solo no qual as rosas da
meditação irão florescer, e o solo será tão feliz quanto as rosas.
Quando as rosas dançarem no sol, na chuva, no vento, o solo também se
alegrará.
Minha abordagem é
totalmente diferente da abordagem que até agora tem sido feita. Por
milhares de anos, todas as religiões estiveram ensinando algo contra o
corpo, contra a mente. (...)
As religiões têm
ensinado contra o corpo. Isso é tão ridículo – você tem que viver no
corpo, tem que alimentá-lo, tem que mantê-lo saudável, ele é a sua
casa. Elas têm falado contra a mente. Isto agora é a última coisa –
Israel fez um trabalho pioneiro. O parlamento de Israel parece ser
constituído verdadeiramente por idiotas de primeira classe.
Eu não acho que eles
conheçam mesmo algo a respeito de meditação, mas o medo... Os judeus
estão com medo, os muçulmanos estão com medo, os hindus estão com medo,
os jainas estão com medo – todos eles estão com medo de meditação.
Embora eles falem a respeito de meditação, eles têm medo dela. Eles
falam porque, sem falar sobre meditação, a religião deles parece estar
incompleta, mas, basicamente, eles são contra ela porque o homem que se
torna meditador, simplesmente escapa, sorrateiramente, de qualquer
religião organizada. Ele não é mais um hindu, não é mais um judeu, nem
um muçulmano. Ele não consegue continuar acreditando em todos os tipos
de superstições e estupidezes das quais todas as religiões estão
cheias.
Os judeus acham que
eles são o povo escolhido de Deus. Ora, nenhum meditador consegue achar
isso. Pensar que ‘somente nós, os judeus, somos o povo escolhido de
Deus, e toda a humanidade, de alguma maneira, é inferior a nós’... Mas
não são apenas os judeus que têm cometido esse pecado. Eles têm sofrido
muito por isso; eles ainda estão sofrendo. Eles continuarão a sofrer,
porque a própria idéia é tão estúpida que ela cria hostilidade,
particularmente num mundo onde os germânicos nórdicos pensam que eles
são o povo escolhido, onde os hindus pensam que eles são o povo
escolhido, porque o seu livro sagrado é o mais antigo e é a primeira
escritura sagrada escrita por Deus. Eles não conseguem tolerar uma
idéia como a de Moisés dizendo a seu povo que ‘vocês são o povo
escolhido de Deus; vocês têm o direito básico de serem superiores a
todo mundo.’ Quem pode tolerar isso? Os hindus pensam que eles é que
são superiores a todo mundo. (...)
Se a meditação se
tornar mais preponderante, então você ficará livre de todos esses
preconceitos; conseqüentemente, nenhuma religião quer meditação, embora
elas possam falar sobre ela.
Para mim nem Deus é
importante, nem céu, nem inferno, nem anjos – todos eles são apenas
hipóteses. Para mim, a meditação é a alma exata da religião. Mas ela
pode ser alcançada apenas se você se mover corretamente. Um simples
passo na direção errada... Você está sempre se movendo no fio da
navalha!
Comece com amor ao
corpo, que é a sua parte mais externa. Comece a amar sua mente – e se
você ama a sua mente, você irá enfeitá-la, assim como você enfeita o
seu corpo. Você o mantém limpo, viçoso; você não quer que seu corpo
cheire mal para as pessoas, você quer que seu corpo seja amado e
respeitado pelos outros. A sua presença deve ser não apenas tolerada,
mas bem-vinda.
Você tem que decorar
a sua mente com poesia, com música, com arte, com ótima literatura. O
seu problema é que a sua mente está cheia apenas com coisas
corriqueiras. Essas coisas medíocres circulam pela sua mente de maneira
que você não consegue amá-la. Você não pensa em alguma coisa que seja
grandiosa. Coloque-a em sintonia com os grandes poetas, coloque-a em
sintonia com pessoas como Fyodor Dostoievski, Leon Tolstoi, Anton
Chekov, Turgenev, Rabindranath, Kahlil Gibran, Mikhail Naimy,
preencha-a com as maiores alturas que a mente já alcançou.
Então, você não
ficará hostil à mente. Então você irá se alegrar na mente; mesmo se a
mente estiver ali no seu silêncio, ela terá uma poesia e uma música
própria, e transcender uma mente tão refinada é muito fácil. É um passo
amigável em direção a picos mais altos: a poesia se transformando em
misticismo, a grande literatura se transformando em grandes insights
sobre a existência, a música se transformando em silêncio.
E à medida que essas
coisas começam a se transformar em picos mais altos, além da mente,
você estará descobrindo novos mundos, novos universos para os quais nós
nem mesmo temos nomes. Nós podemos dizer felicidade, êxtase,
iluminação, mas nenhuma palavra descreve isso verdadeiramente. Está
simplesmente fora do poder da linguagem reduzir isso em explicações, em
teorias, em filosofias. Isso está simplesmente além... Mas a mente se
alegra em sua transcendência.
Eis o que é a minha
única contribuição para você. Com absoluta humildade eu quero lhe dizer
que estou muito à frente mesmo de Goutama Buda pela simples razão de
que ele ainda está lutando com a mente. Eu amei a minha mente e através
do amor eu a transcendi.
Isso é um começo
totalmente novo. Naturalmente eu tenho que ser condenado. Muitos virão
até a mim, mas não serão capazes de caminhar comigo, nem mesmo alguns
passos, porque logo descobrirão que seus preconceitos os estarão
impedindo de seguir comigo.
Os seus preconceitos
são antigos e naturalmente – eu posso compreender – eles nâo podem
pensar que alguém possa ir além de Goutama Buda, da mesma maneira que
os contemporâneos de Goutama Buda não podiam acreditar que ele tinha
ido além dos VEDAS e além dos profetas dos UPANISHADS, da mesma maneira
que os contemporâneos de Lao Tzu e Chuang Tzu não podiam acreditar que
eles tivessem ido além de Confúcio.
E se, apenas por
questão de humildade, eu não disser a verdade, eu estarei cometendo um
crime contra a verdade. Não me interessa tal humildade; o que eu quero
é exatamente que o caso seja explicado a você.
A minha abordagem a
respeito de meditação é totalmente nova, totalmente fresca, porque ela
depende do amor – não da luta, não da guerra. Eu deixei Mahavira vinte
e cinco séculos atrás. O seu nome não era Mahavira – mahavira significa
‘o grande guerreiro’. O seu nome era Vardhamana, mas as pessoas mudaram
seu nome porque ele era um grande guerreiro. Um guerreiro contra quem?
– contra seu corpo, contra a sua mente. E eu não acho que alguém que
seja contra seu corpo e contra sua mente seja capaz de alcançar o além.
Somente o amor é o
caminho.
Sagarpriya, faça a
sua mente tão bela quanto for possível. Enfeite-a com flores. Eu fico
realmente muito triste quando vejo pessoas que não conhecem O LIVRO DE
MIRDAD, que nunca viram as histórias absurdas de Chuang Tzu, que nunca
se preocuparam em compreender as histórias totalmente irracionais do
Zen. Eu não consigo conceber como você consegue viver belamente se não
conhece os livros de Dostoievsky... Para mim, OS IRMÃOS KARAMAZOV é
mais importante que A BÍBLIA. Ele tem tantos insights grandiosos, que A
BÍBLIA não deve ser considerada de jeito algum, nem mesmo por
comparação. Mas A BÍBLIA será lida – e quem vai se preocupar com OS
IRMÃOS KARAMAZOV, no qual Dostoievsky colocou toda a sua alma? Ou ANA
KARENINA de Leon Tolstoi, ou PAIS E FILHOS de Turgenev, OFERENDA DE
CANÇÕES de Rabindranath? E estes são apenas poucos nomes; existem
milhares que alcançaram o melhor florescimento da mente.
Primeiro deixe sua
mente ser enfeitada. Somente além desse jardim perfumado da mente você
será capaz de ir silenciosamente, sem qualquer luta; a mente será uma
ajuda, não um obstáculo; então eu posso dizer com total autoridade: ela
não é um obstáculo. Você simplesmente não sabe como usá-la.
Ela é bela,
Sagarpriya, e quando você vem aqui, você se sente meditativa. Pelo
menos estes pequenos espaços, estes poucos dias, irão gradativamente
começar a se tornar mais fortes, mais profundos. Um dia, você terá ido
e estes momentos estarão com você, mesmo no mundo dos negócios, e este
será um dia de grande alegria.
Mas isso leva tempo.
Eu tenho que dizer às pessoas que isso pode acontecer instantaneamente.
Não que isso seja falso – pode acontecer instataneamente, mas onde
encontrar o gênio que consegue compreender isso instantaneamente?
Quando eu digo que
isso pode acontecer instantaneamente, as pessoas simplesmente pensam,
‘Isso é impossível para nós.’ Se eu lhes disser que isso pode acontecer
ao longo de algumas vidas, elas acham, ‘Isto parece estar perfeito,’
porque enquanto isso elas têm tempo de fazer todas as suas coisas
estúpidas. Qual é a pressa, se isso é uma questão de algumas vidas?
Primeiro cuide de seu namorado, de sua namorada; primeiro vá visitar as
ruínas de Roma, da Grécia, da Índia; primeiro faça todas essas coisas
tolas que toda a multidão espera de você. E no que se refere à
iluminação, ela não vai acontecer agora, isso demora muitas vidas,
assim, por que a pressa? Você pode continuar deixando para depois.
É por isto que as
pessoas amam todas as religiões que falam sobre muitas vidas – não
porque elas compreendem o significado disso, mas porque elas querem
usar isso como uma desculpa.
Isto pode acontecer
neste exato momento, mas não acontecerá. A razão não está na sua
natureza; a razão está em você. Não acontecerá porque você não quer que
aconteça exatamente agora.
Pense apenas por um
momento: Se eu fosse fazer você se iluminar neste exato momento, você
começaria a pensar, ‘Mas eu não pedi ao meu marido. E o que fazer com
meus filhos? Eu tenho que casar a minha filha. Eu acabei de encontrar a
minha namorada, meu Deus! E isso vai acontecer exatamente agora? Ele
não poderia esperar? Deixe-me só terminar a lua-de-mel.’ Mil pensamenos
surgirão em sua mente: ‘Meu Deus, eu comecei um novo negócio, investi
tudo nele. Se ele tivevesse me falado antes, eu não teria me envolvido
em toda essa bagunça.’ Todo mundo, sem exceção...
Eu contei a vocês a
história de um grande mestre ceilonês que tinha milhões de discípulos e
que, por cinqüenta anos, esteve lhes dizendo somente uma coisa:
Meditem. O dia de sua morte chegou e ele anunciou, ‘Após sete dias eu
vou deixar o corpo, assim deixe que todos os meus discípulos se reúnam
de modo que eu possa vê-los uma vez mais, porque eu não voltarei
novamente.’
Assim, todos os
discípulos se reuniram; foi uma grande reunião. E antes de morrer, o
velho homem disse, ‘Eu sempre disse a vocês para meditar, mas vocês não
me ouviram. Eu dou a vocês uma outra chance. Desta vez vocês não têm
que fazer coisa alguma. Eu vou morrer e eu posso levar vocês comigo.
Tem alguém pronto para vir comigo?’
Todo mundo olhou, um
para o outro: ‘Você ficou muito tempo com ele, você pode ir.’ As
pessoas olhavam umas para as outras e sussurravam, ‘O que você está
fazendo? Todos os seus filhos estão casados, tudo já está terminado,
ninguém precisa de você...’ Mas ninguém se levantou.
Ele disse,
‘Simplesmente se levantem e eu levarei vocês comigo.’
Houve um grande
silêncio e as pessoas começaram a olhar para baixo – como encarar esse
velho homem? É tão embaraçoso. Mas todos eles ficaram sem se mover,
porque qualquer movimento ele poderia entender mal – ele poderia ver
alguém se movendo e dizer, ‘Levante!’. Finalmente um homem levantou a
mão. Ele disse, ‘Primeiro, por favor, compreenda isso: Eu não estou me
levantando. Eu simplesmente levantei a mão para lhe formular uma
pergunta.’
O velho homem disse,
‘Por cinquenta anos eu estive respondendo a perguntas e você ainda está
formulando perguntas? E desta vez eu estou lhe dando a oportunidade de
vir comigo.’
Ele disse, ‘Sinto
muito. Algum dia eu irei. Conte-me apenas o segredo de como eu posso ir
me encontrar com você.’
Ele disse, ‘O que eu
estive falando para vocês por cinqüenta anos?’
O homem disse, ‘Só
uma vez mais...’
É possível neste
exato momento abandonar todos os seus preconceitos, limpar sua mente. É
preciso apenas uma resolução absoluta, a maior confiança e um amor que
não conheça limites.
Mas se não puder
acontecer neste momento, eu não quero que alguém fique triste e entre
num estado de desespero. Isso pode acontecer amanhã. Você pode relaxar,
não há pressa. Mas, por favor, compreenda o processo claramente: ame
seu corpo – contra todas as religiões. Ame sua mente, refine sua mente
– contra todas as religiões.
E eu lhes digo que a
luta não é o caminho; o caminho é o amor. Ame seu corpo, ame sua mente,
e este próprio amor criará a energia, a atmosfera para transcender a
mente, para criar o que eu chamo meditação ou o estado de não-mente.
Ele virá. Ele tem que vir. Ninguém sai deste templo de mãos vazias.
Mas vocês têm que
entender uma coisa: eu não represento qualquer velha tradição, eu não
represento nenhuma velha religião; eu não represento qualquer Goutama
Buda, ou Mahavira, ou Maomé ou Jesus ou Moisés – eu simplesmente
represento a mim mesmo.
E se você puder amar
e confiar num estranho que não pertence a qualquer organização
ortodoxa, então comigo a meditação estará acontecendo... E logo, sem
mim também, ela estará acontecendo. Levará um pouco de tempo. Levará um
pouco de tempo porque é preciso crescer as raízes.
Assim, Sagarpriya,
sempre que você puder encontrar um tempo, venha. E não se preocupe com
o que acontece do lado de fora; é simplesmente lixo. O que acontece
aqui, conte apenas isso como sendo sua vida verdadeira. Os momentos em
que você está comigo permanecerão com você mesmo depois da sua morte, e
os momentos que você está desperdiçando no mundo simplesmente irão pelo
esgoto.
Mas não há
necessidade alguma de se preocupar. Se mesmo uns poucos momentos de
meditação começarem a se tornar sementes em você, começarem a criar
raízes em você, não está muito longe o dia em que as primeiras flores
de sua consciência estarão crescendo dentro de você.
E eu a compreendo,
Sagarpriya; compreendo você e sua confiança e seu amor. Poucas pessoas
têm tanto amor e tanta confiança.
Mas, abandone toda
hostilidade para com a mente. Existe uma fase de luta com a mente,
talvez inconsciente – a mente é apenas uma coisa pobre e bela. (...)
Sinta esta paz,
absorva este silêncio. E à medida que você o absorve, ele se torna mais
profundo... Ele começa a tocar o seu coração.
Não há movimento
algum, mas você sentirá uma dança.
Não há palavra
alguma, mas você sentirá uma canção.
É como se ninguém
existisse, mas uma extraordinária unidade... Todas as personalidades se
foram e somente uma consciência, pulsando em sincronicidade um com o
outro.
Só para concluir
este belo momento... Eu sempre gosto de deixar vocês rindo, cantando e
dançando. Isto é apenas uma indicação de que no dia em que eu
finalmente deixá-los, eu gostaria que vocês cantassem, dançassem e
celebrassem.
Na verdade, nenhum
homem na história do mundo recebeu uma tal celebração quando morreu
como a que vou receber. Uns poucos receberam celebração apenas dos
inimigos, porque os inimigos celebram quando se morre. Os amigos
lamentam.
Eu sou a única
pessoa... Na minha morte os meus amigos celebrarão e meus inimigos
celebrarão. Na minha morte eles estarão juntos em celebração. Nunca
existiu um homem assim antes.
Uma senhora negra em
Nova York recebeu uma chamada telefônica da escola onde seu filho Leroy
estuda. O diretor queria vê-la o mais cedo possível por causa do
comportamento de seu filho.
‘O seu filho,
Leroy,’ começou o diretor, é uma influência perturbadora.’
‘Exatamente como seu
pai,’ disse a senhora negra.
‘Ele rouba das
outras crianças,’ continuou o diretor.
‘Exatamente como seu
pai,’ disse a mulher.
‘Ele está sempre
entrando em brigas,’ continuou o diretor.
‘Exatamente como seu
pai,’ respondeu a mãe.
‘Ele persegue as
garotinhas e as faz chorar,’ disse o diretor.
‘Exatamente com seu
pai, disse a senhora negra, ‘e, senhor, eu me alegro por nunca ter me
casado com aquele homem!’ "
Osho – The Great Pilgrimage: From Here to Here – capítulo 13 – pergunta
n° 2
Tradução: Sw. Bodhi Champak
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