AMADO MESTRE, O QUE É SHAKTIPAT, A TRANSMISSÃO DE ENERGIA ESPIRITUAL?
“A coisa mais fundamental para entender é que o materialismo está
morto, que matéria já não existe. Tudo que existe é energia.
A energia em uma pedra é a mais baixa forma, a mais dormente, a mais
fechada, mais adormecida. Então tem o mundo das plantas, das árvores.
Elas abriram um pouco mais. Elas estão mais disponíveis à existência do
que uma pedra. Elas comunicam-se com o sol, com a lua, com as estrelas,
e esta comunicação é comunicação de energia. Elas levam energia; dão
energia. E esta é a ecologia da existência completa, uma tremenda
interdependência. De todas as maneiras possíveis, existe uma
transferência delicada de energia que acontece em todos os lugares.
O homem expira, e ele está expirando uma certa energia que nós chamamos
gás carbônico; não é nenhuma matéria. Ele inspira, novamente outra
forma de energia, oxigênio. As árvores fazem exatamente o oposto: elas
exalam oxigênio; e inalam gás carbônico. É assim que o equilíbrio é
mantido.
Em milhões de formas, a energia está se movendo através dos diferentes
organismos. E mais elevado do que as plantas são os animais que têm a
capacidade de se movimentar. Há um vinculo: existe plantas que não
podem se mover, e plantas que podem mover-se um pouco; têm animais que
podem se mover por milhas, e têm pássaros que podem se mover milhares
de milhas. Este movimento faz sua energia dinâmica.
Estes são desenvolvimentos de energia. E acima de todos estão os seres
humanos que têm energia que contém vida e movimento. Mas poucos deles
podem atingir a consciência, que é a maior forma de energia
desenvolvida. E o caminho da consciência é exatamente como o caminho de
um rio. Segue o caminho da gravidade para baixo.
O dispositivo que você está perguntando é um dispositivo antigo. Eu
usei-o, mas por menos que seis anos porque eu o refinei para formas
melhores, e transformações mais invisíveis. O dispositivo antigo é
absolutamente dependente no discípulo, e naquele discipulado você não
pode usar a palavra ‘Amigo’. A palavra ‘Amigo’ somente pode ser usada
com as minhas técnicas refinadas.
O dispositivo antigo tem que usar o mestre e o discípulo. O discípulo
tem que se render totalmente, tem que ficar vulnerável, estar aberto,
ariscar tudo e ter fé. Se o mestre é um mestre autêntico então o toque
dele, particularmente na testa entre os dois olhos, onde
mitologicamente no Oriente nós visualizamos um terceiro olho. . . Se
ele entra em contato físico com o terceiro olho, e o discípulo está
absolutamente disponível, rendido, pronto para receber, então a energia
do mestre começa a fluir. O mestre não perde nada porque quanto mais
ele dá, mais energia é vertida pelo próprio cosmo
no seu ser. Ele é recompensado imensamente. Mas ele não pode fazer nada
se o discípulo for um pouco relutante, um pouco fechado, um pouco
amedrontado, não se rendeu totalmente. Então nada acontecerá.
A propósito, eu me lembrei do tika no terceiro olho usado pelas
mulheres orientais, recomendado pelos homens para usá-lo. É uma marca
redonda vermelha exatamente no mesmo lugar onde está o terceiro olho.
Eles persuadiram as mulheres, ‘Este é o sinal de estar casada’. Mas a
verdade é outra coisa. É novamente a longa história de criar a mulher
como escrava do homem. A marca vermelha no terceiro olho está impedindo
a mulher de receber a energia de um mestre. A cor da energia é
vermelha, e o tika que foi recomendado para a mulher pôr na testa
também é vermelho.
As cores funcionam de tal uma forma que se você tiver uma mancha
vermelha em sua testa, todas as cores serão absorvidas menos o
vermelho. O vermelho será mandado de volta. Assim, o que nós vemos no
mundo é um fenômeno muito estranho. Quando você vir alguém em roupas
azuis, a realidade é que essas roupas não são azuis, elas estão
refletindo de volta a cor azul. Eles estão absorvendo todas as seis
cores do arco-íris dos raios do sol, mas não aceitando o azul. E porque
o azul não é aceito, ele atinge em seus olhos e você vê a cor das
roupas como azul. Mas tudo isto é muito ilusório - essas roupas não são
azuis.
E desta forma uma estratégia usada por milhares de anos na Índia,
mostra que eles sabiam como funcionam as cores. Pôr uma marca vermelha
no terceiro olho significa que todas as cores podem ser absorvidas,
podem ser absorvidos todos os tipos de energias, mas não a energia que
tem a cor vermelha. A energia do mestre tem a cor vermelha; é a cor do
sangue, a cor de vida, a cor do calor.
Impedir as mulheres de se tornarem discípulas ou, mesmo se eles o
fizeram, não lhes permitindo o privilégio de ser uma discípula, uma
estratégia muito esperta foi usada. Assim se você gosta do tika, use
qualquer cor, porém não use o vermelho. Parece bonito, use o espectro
inteiro de cores, mas exclua vermelho.
Quando o mestre toca o terceiro olho do discípulo, se o discípulo está
disponível - e isso é um grande SE, que raramente acontece - então de
repente um fluxo de calor, vida, e consciência começa a atingir o ponto
que por razões específicas nós chamamos o terceiro olho. É o ponto que,
se abrir, faz de você um vidente. Então você pode ver coisas sobre você
e sobre outros mais claramente, mais transparentemente--e sua vida
inteira começará a mudar com esta nova visão.
Mas eu não usei o método de shaktipat por seis anos porque sentia que
havia algumas falhas nele. Primeiro, o discípulo tem que estar em um
estado mais baixo que o mestre, do que eu não gosto. Aqui, ninguém é
mais baixo; como ninguém é mais alto. O discípulo tem que ser apenas um
receptor. Ele não pode contribuir em nada. E também ele fica
dependente, porque somente quando o mestre o toca é que ele se sente
cheio de energia, cheio de alegria, mas não de outra forma.
Depois, a mesma idéia de rendição é basicamente difícil, e pedir
rendição total é pedir o impossível. Nós deveríamos pensar nas
condições humanas. Nós estamos lidando com seres humanos, e não
deveríamos pedir algo que eles não podem fazer. E quando eles não podem
fazer algo e são condenados, eles começam a se sentirem culpados por
não estarem abertos, e por não terem se rendido totalmente, e por haver
dúvidas em suas mentes. Assim é criada a culpa. Em vez de rendição você
criou a culpa.
Durante seis anos tenho tentado achar métodos mais refinados, e eu os
achei. Talvez eles nunca tenham sido usados antes, mas são mais
civilizados, refinados e mais humano. Por exemplo, quando estou falando
com você, eu não estou lhe pedindo que se renda, que fique aberto, não
estou lhe pedindo nada. Mas apenas por me escutar, tudo acontece
automaticamente -- você não tem que fazer nada.
Energia não é algo físico, que você tem que tocar a pessoa. Ela pode
acontecer apenas olhando nos olhos da pessoa. Ela pode acontecer apenas
por seu gesto, ou apenas no silêncio entre duas palavras. Deste modo
nada é pedido e ainda está mais facilmente disponível.
Depois, o discípulo não necessita ser um escravo, um escravo
espiritual. Ele pode ser um amigo. Eu sinto que você pode confiar mais
em um amigo do que pode confiar em qualquer outra pessoa.
Amizade é o mais alto florescimento do amor onde tudo que é primitivo
no amor foi derrubado e somente o perfume permanece. E o perfume pode
ser alcançado sem qualquer conexão física. Nestes seis anos eu vi isto
acontecendo mais e mais em uma vasta escala. Você nem está esperando
pela energia, nem está preparando para a energia e inesperadamente, ela
vem como uma surpresa e enche o seu coração.
No método antigo a rendição é pedida; no método novo é pedido somente
uma amizade amorosa que é mais humana, mais natural. No antigo método a
rendição tinha que ser à base de tudo. Mas lembre-se, a quem quer que
você se renda, você levará um rancor contra essa pessoa.
Não é apenas uma coincidência que Judas, um dos discípulos mais
proeminentes de Jesus, o traiu. O próprio genro de Mahavira o traiu. O
próprio primo-irmão de Buddha, Devadatta, o traiu. Não é uma exceção,
mas uma regra. Estas pessoas podem ter se rendido, mas um pouco de
relutância deve ter continuado neles.
Por exemplo, o caso de Judas. . . . Ele era mais educado, culto, e
filosoficamente mais instruído que o próprio Jesus, e ele teve que se
render e ter fé em um homem que sabia menos que ele. Alguma coisa
estava acontecendo dentro dele, mordendo-o--" Algo tem que ser feito.
Uma vingança tem que ser tomada".
O genro de Mahavira. . . . Na Índia é a tradição que o genro seja muito
respeitado; até mesmo o sogro tem que tocar os seus pés. A única filha
de Mahavira se tornou uma sannyasin, e assim o genro pensou que como de
costume ele seria o sucessor de Mahavira--" quem mais poderia
reivindicar? Houve um momento que até mesmo Mahavira tinha tocado os
seus pés!
Mas Mahavira não quis isto porque haviam na comunidade pessoas mais
sábias, mais iluminadas. Ele recusou o genro, dizendo, ‘não é uma
questão de relacionamento, e no momento em que você se tornou um monge
você deveria ter esquecido esta relação’.
Ele rebelou-se contra e traiu Mahavira. Então Mahavira escolheu uma
outra pessoa que era o mais instruído, o mais carismático, e um orador
muito influente.
Goshalak tinha tremendo poder, de muitas formas sobre muitos reis. Mas
Goshalak estava acostumado, tomou isso como garantido, e começou a usar
o poder dele em cima de outros, enquanto dizia, ‘eu vou ser o sucessor
de Mahavira.’
Tem uma história muito bonita. . .
Goshalak e Mahavira ambos estavam indo para a sua mendicância diária.
Eles passavam por uma planta que tinha brotado recentemente. Goshalak
disse a Mahavira, ‘Senhor, você diz que tudo acontece de acordo com uma
certa lei do karma. Agora, o que você pode dizer sobre esta planta, ela
sobreviverá ou não? Você é onisciente, você pode saber’.
Mahavira disse, ‘ela sobreviverá, e se tornará uma árvore muito grande
com grande folhagem’.
Goshalak foi até a planta, arrancou-a e jogou fora, dizendo, ‘Agora nós
veremos como essa árvore crescerá com uma grande folhagem’.
Mahavira simplesmente sorriu, e eles caminharam para a aldeia.
Enquanto isso, aconteceu um grande ciclone. . . chuvas. Quando eles se
voltaram, Mahavira mostrou para ele que a planta estava ficando em pé.
O ciclone e as chuvas tinham mudado sua posição. Estava novamente de
volta à terra. E Mahavira disse, ‘Goshalak, você quer tentar novamente?
Esta planta vai se tornar uma grande árvore, com grande folhagem, uma
bonita árvore. Você não pode mudar o seu curso.’
Goshalak ficou muito bravo. Mahavira mudou seu pensamento, este não era
o homem certo: ‘Se ele suspeita de minha abordagem com a vida, toda a
minha filosofia, então ele não pode ser meu sucessor.’
No momento em que Goshalak achou que não iria ser o sucessor, ele se
rebelou imediatamente, levando quinhentos sannyasins de Mahavira com
ele. Ele se proclamou ser o verdadeiro mestre, e Mahavira apenas uma
fraude.
Meu próprio insight é que estas pessoas tinham se rendido, mas alguma
parte do ser delas permaneceu não rendida, esperando por uma vingança,
e enquanto esperam por uma oportunidade, cedo ou tarde a oportunidade
acontece.
Eu não sou muito a favor da antiga estratégia. Eu usei isto porque isso
era a única estratégia que estava disponível. Mas devagarzinho eu vi
suas desvantagens, suas falhas. Ela pode ajudar alguns, mas prejudicou
muitos mais. Desde então eu tenho tentado achar modos mais sutis, mais
humanos, mais invisíveis. Eu os achei e eles estão funcionando, estão
funcionando tremendamente. Posso fazer o mesmo apenas falando com você,
ou apenas com o meu silêncio. Eu posso fazer o mesmo apenas com a minha
presença.
E eu não lhe peço nada. O que quer que eu esteja fazendo, se você se
envolver nisto, o que vai acontecer... Se você estiver me
escutando, você vai se envolver. Se eu estou olhando para você, no
momento em que você não pode pensar em nada, algo exala e você se torna
uma chama. É mais delicado e mais adaptado às camadas mais altas de
consciência.
Nesta referência a palavra `Amigo' pode ser usada, mas não na primeira.
É por isso que eu tenho insistido na palavra `Amigo'.
Eu não quero ser traído por você.
Eu não quero nenhum Judas, nenhum Goshalak, nenhum Devadatta. E se eu
não estou apresentando uma posição mais elevada que você, não há
nenhuma necessidade de ser traído.
Eu tenho sido apenas um amigo no caminho, caminhando junto--ninguém
mais alto, ninguém mais baixo. Nós apenas gostamos um do outro e
caminhamos junto! E como nós caminhamos junto, a preferência se tornou
amor. Enquanto caminhamos juntos, nós nos tornamos mais e mais íntimos
e a energia é transferida.
Isto é algo novo que antes nunca foi dito, e nunca tinha sido tentado.
Eu quero fazer uma linha clara que divide a história de escravidão
espiritual da liberdade espiritual onde o mestre é tão confiante da sua
autoridade que não precisa fingir ser mais alto. Você consegue ver o
ponto? Sempre que alguém finge ser mais alto, ele é suspeito da sua
altura, ele é suspeito da sua autoridade.
Somente um verdadeiro mestre pode ser humilde.
Somente um verdadeiro mestre pode ser humano.
Os antigos métodos de religião, todos eles têm que ser abandonados. Nós
demos bastante tempo para eles; e não tiveram sucesso transformando a
humanidade. Agora nós temos que trabalhar de um modo diferente, de um
modo novo.
Meu sentimento é que existe milhões de pessoas no mundo que querem ser
transformadas, mas que não querem ser humilhados diante de um Deus,
diante de um mestre; pessoas que têm um pouco de auto-respeito.
Eu estou abrindo a porta para todas essas pessoas que têm algum
auto-respeito. Nós não tocaremos em seu auto-respeito. É totalmente
seguro. Se ele desaparecer pela sua própria decisão e deixar uma
consciência melhor dentro de você, foi você quem decidiu.
OSHO, The Sword and the Lotus, Capítulo 7, pergunta 1
Tradução: Ma Shanti Leela
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