Querido Osho,
Você poderia falar um pouco mais a
respeito da aceitação?
“Chintan, eu compreendo a sua pergunta.
Chintan está à beira da morte. Os
médicos lhe disseram que ele não conseguirá sobreviver mais do que dois
meses, e já se passou quase um mês. Ele procurou por mim quando os
médicos disseram que ele tinha um câncer que não podia ser operado e
que estava crescendo rapidamente. Naturalmente, ele ficou assustado. Um
jovem que ainda não tinha visto a vida, ainda não tinha vivido, estava
apenas no meio... Naturalmente, ele estava muito assustado.
Ele me escreveu e eu lhe disse, ‘Não é
preciso ficar assustado. Você é afortunado por saber o momento exato em
que sua vida irá terminar. Os outros não são tão afortunados; eles não
sabem. A vida deles poderá terminar amanhã. Você sabe exatamente que
dentro de dois meses irá morrer, por isso, viva esses dois meses tão
intensamente e tão alegremente e tão meditativamente quanto for
possível. Você não pode adiar. Os outros podem adiar porque eles não
estão conscientes de quando eles irão morrer. Você está numa situação
melhor porque você não pode adiar. Você tem que fazer tudo agora.’
Ele compreendeu e tem estado muito
feliz, alegre, meditando, dançando e cantando. E seus amigos têm
escrito para mim. ‘Nós não conseguimos acreditar em tanta mudança. Seus
médicos estão maravilhados; eles nunca viram alguém encarar a morte tão
belamente, com tanta leveza.’
A pergunta dele precisava deste contexto
para que vocês entendam quando ele diz, ‘Você poderia falar um pouco
mais a respeito da aceitação?’
A linguagem humana é muito pobre. A
palavra ‘aceitação’ traz em si uma relutância oculta. Vocês podem não
ter olhado no fundo da palavra, mas quando você diz ‘aceite isso’,
existe uma relutância oculta, um tipo de obrigatoriedade, porque não
existe nada mais a ser feito. Assim sendo, para que fazer um
estardalhaço a respeito? – aceite isso.
Esse tipo de aceitação não é verdadeiro
nem autêntico. Eu diria, desfrute isso. A não ser que a sua aceitação
seja um desfrute, a não ser que a sua aceitação seja com sua totalidade
– sem qualquer relutância, não devido a uma coação, não devido a uma
situação particular, mas devido à sua compreensão...
A aceitação se torna uma bela
experiência se ela for ao mesmo tempo um desfrute. Você não está
aceitando sob a pressão das circunstâncias; você está aceitando de
livre e espontânea vontade, com alegria, com profundo sentimento de
boas-vindas.
Somente então você compreenderá o que a
aceitação pode fazer para o seu ser. Num simples momento ela pode mudar
você, transformar você de um ser humano comum em um ser humano
desperto. Mas não aceite com relutância. Isso é enganar a si mesmo
porque no fundo você não quer aceitar. Exatamente daqui a dois meses
você vai morrer? E naturalmente, quando alguém diz, aceite isso, o que
mais fazer? Não há nada. Os médicos estão fazendo a quimioterapia –
eles estão fazendo tudo o que é possível. Mas eles sabem que nada irá
ajudar; o câncer já foi além dos limites de sua cura.
Vendo a situação, você consegue
aceitá-la, mas haverá uma
negatividade dentro de você. Você está aceitando porque nada mais pode
ser feito. Se houvesse alguma possibilidade a ser tentada você não
aceitaria. Eu não posso chamar isso de aceitação autêntica. A aceitação
autêntica não tem qualquer tom negativo nela, nenhuma relutância,
nenhuma resistência, nenhuma coação. Não é devido à pressão das coisas
e das situações e de sua impotência. Não aceite devido à sua
impotência; aceite devido à sua força.
Dois meses é muito tempo para viver.
Pode-se viver tão intensamente e totalmente em um segundo quanto vivem
as pessoas por toda uma vida. Mas a vida delas é muito delgada,
esticada ao longo de todo o tempo. Isso não significa que eles são
afortunados, porque uma vida autêntica precisa de grande intensidade e
totalidade, não uma camada delgada. Uma sobrevivência morna não é
viver. Mas se você souber que no momento seguinte irá morrer, você
abandonará tudo em que estava envolvido e a única prioridade será
conhecer a si mesmo. Pelo menos, antes que a morte chegue, seja
consciente de quem você é. Você não tem tempo para adiar.
Aconteceu que um homem costumava ir até
o místico Eknath por muitos anos. Ele era um devoto, mas havia dúvidas
em sua mente que continuamente o beliscavam. E porque sempre havia
muitos discípulos ele não conseguia perguntar. Assim, um dia ele foi
muito cedo, antes do sol nascer. Eknath estava vindo do rio. Ele tinha
ido tomar um banho antes de sua meditação matinal no templo. Ele chegou
até Eknath e disse, ‘Desculpe-me por perturbá-lo nesta hora, mas eu
tenho carregado uma pergunta por toda minha vida.’ Ele era um jovem
saudável e forte; ele disse, ‘Eu não consigo dissolver, isso continua.
É uma perturbação entre eu e você.’ Eknath disse, ‘Qual é o problema?’
Ele disse, ‘O problema é que há muitos
anos eu venho aqui para vê-lo, mas eu nunca o vi triste. Eu nunca o vi
com raiva. Eu nunca o vi com inveja; eu nunca o vi em um estado
negativo da mente. Você está sempre rindo, alegre e relaxado como se
não tivesse nenhum problema ou preocupação no mundo. Você não se afeta
nem mesmo com a morte. Você conduz isso tão facilmente. E o problema é
que uma dúvida surge em mim: você é um ator ou realmente é iluminado?
Pode-se dar um jeito de representar um sorriso, de sempre se mostrar
alegre, levar tudo facilmente e nunca seriamente. Isso é apenas uma
disciplina? Você fez um treinamento para isso? Ou isso é algo que
aconteceu a você – é um não-fazer seu, uma compreensão natural e
espontânea que cresceu a partir de suas meditações? Esse questionamento
tem me preocupado, pois é possível um homem dar um jeito e fingir. Você
vê os atores no cinema e sabe que eles são os mais miseráveis no mundo,
mas no filme eles aparentam ser tão alegres, tão felizes, amorosos,
cheios de paz, corajosos. Se é possível fazer isso no cinema e no
teatro, então por que não seria possível fazer na vida real? Você
precisa apenas de um pequeno controle para não demonstrar seus
verdadeiros sentimentos, mas continua representando sempre.’
Eknath disse, ‘Espere um minuto. Antes
de responder a sua pergunta, eu não posso me esquecer de algo que eu
queria lhe dizer. Há três dias que eu venho me esquecendo, e isso é
importante; assim, primeiro eu lhe direi tal coisa e depois eu
responderei a sua perguntar. Há três ou quatro dias, aconteceu de eu
olhar a sua mão e fiquei muito assustado. O seu tempo de vida chegou ao
fim, apenas uma pequena fração permanece, de modo que você ainda viverá
no máximo sete dias. No sétimo dia, quando o sol estiver se pondo, você
morrerá. Eu estava me esquecendo disso, que é tão importante quanto a
sua pergunta. Agora nós podemos conversar sobre a sua pergunta.’
O homem se levantou e disse, ‘Eu não
tenho pergunta alguma e não tenho tempo para conversa. Se a morte está
chegando em sete dias, por que eu deveria me preocupar se você é
verdadeiro ou não? Isso é assunto seu; não é um problema meu.’
O homem começou a descer as escadas.
Havia muitas escadas no templo, e Eknath ficou observando. Apenas cinco
minutos atrás ele chegou muito forte e jovial, agora ele se vai como um
velho, cambaleando, apoiando-se no corrimão, onde nunca se apoiou
antes, com medo de cair. E quando ele chegou em casa, foi direto para a
cama, embora não fosse a hora, era de manhã e ele tinha acabado de se
levantar. Ele reuniu toda a família e contou o que Eknath lhe disse.
Era inconcebível que Eknath mentisse;
não havia sentido em mentir. Então só havia choro e lamento, e o homem
parou de comer. Para que comer, agora que vai morrer?
Mas uma coisa estranha começou acontecer
assim que ele se conformou com a idéia de que a morte estava chegando e
que nada poderia ser feito. ‘Por que não usar esse tempo para a
meditação, a qual eu tenho adiado por muitos anos? Eknath diz
continuamente todos os dias para meditar, para colocar energia na
descoberta de si mesmo, e eu tenho adiado isso, pois, para que ter
pressa? Eu sou jovem e essas coisas, meditação e autoconhecimento
pertencem às pessoas velhas que já não têm mais o que fazer. De
qualquer forma, eles pararam de trabalhar, se aposentaram. Esse é o
tempo certo para meditar e descobrir quem você é. Neste exato momento
você tem que descobrir muitas outras coisas – dinheiro, poder,
prestígio, respeitabilidade. Este tempo não é para ser desperdiçado,
descobrindo a si mesmo. Isso você poderá fazer a qualquer momento,
quando já não tiver mais utilidade na vida, quando a vida rejeitá-lo
com a aposentadoria. ‘
É estranho que em
toda parte, quando as pessoas se aposentam, seus colegas se reúnem para
lhes dizer um adeus e sempre lhes dão um relógio de bolso. Eu não posso
acreditar nisso...Qual é a idéia? Mas agora eu sei. Eles lhe dão um
relógio de bolso ‘para lembrá-lo que não resta muito tempo, para
lembrá-lo de fazer agora as coisas essenciais que você tem adiado.’
O homem deitou-se e, pela primeira vez,
começou a observar a sua mente. Em dois ou três dias, ficou
completamente silencioso. Todos os a familiares, parentes e amigos
chegavam de longe. Eles ficaram ainda mais perturbados. A morte estava
chegando, isso já era um choque. Mas, o que estava acontecendo com esse
homem? Ele não abria seus olhos; ele não comia; ele não tinha interesse
por nada. Este deveria ser um tempo para ele se encontrar com a
família, com os amigos, pois quem sabe quando você encontrará essas
pessoas de novo? Não há muita chance.
Mas ele não estava interessado em coisa
alguma. Ele nem mesmo lhes permitiu chamar um médico. Pelo quarto dia,
eles não podiam acreditar como ele estava com a aparência tão bela, tão
cheia de graça, tão silenciosa. Todo o seu quarto tinha quase a mesma
qualidade que existia ao redor de um homem de silêncio ou que existe
num templo vivo, onde existem não apenas estátuas, mas a presença de
algum mestre vivo.
As pessoas vinham com discursos
preparados, diálogos que é preciso dizer, pois é muito embaraçoso
visitar um homem que está para morrer. O que lhe dizer? Você não pode
conversar sobre filmes, não pode conversar sobre política, nem sobre
futebol, ou luta de box. O que existe para se falar? É muito embaraçoso
se alguém está morrendo e você tem que deixar acontecer. Prepara-se
então um diálogo para consolar, ‘Não se preocupe, todo mundo morre.
Isso não está acontecendo apenas com você. E depois existe Deus: você
foi um homem virtuoso e o céu está totalmente garantido.’
Tem que se preparar diálogos como este
porque agora os assuntos mundanos que as pessoas fofocam entre si não
fazem sentido. Mas, na medida em que as pessoas entravam, nem mesmo
esse diálogo era possível, pois o homem estava muito silencioso. No
sétimo dia, ele abriu os olhos e perguntou à sua família, ‘Quanto tempo
falta para o sol se pôr?’(...)
E as pessoas diziam, ‘O sol já está
quase se pondo, faltam poucos minutos.’ E ele estava mostrando tanta
graça, tanta alegria, tanta felicidade, que a família não podia
acreditar na metamorfose que aconteceu nesses sete dias. Todos eles
sabiam que ele era um homem comum. A esposa sabia, o pai sabia, o irmão
sabia que ele nada tinha de especial, mas em sete dias ele foi muito
além deles.
Exatamente na hora em que o sol estava
se pondo, todos começaram a chorar e se lamentar. E ele estava lhes
dizendo, ‘Fiquem quietos. Não há nada com que se preocupar.’
Naquele momento, Eknath chegou. Toda a
família tocou-lhe os pés e lhe disseram, ‘Salve-o Você pode fazer algo?’
Eknath disse, ‘Com a morte não existe
possibilidade. Deixem-me vê-lo.’
Assim, todos eles, respeitosamente, se
afastaram e deram passagem para o Eknath. O homem estava sentado
silenciosamente com os olhos fechados, quase parecendo uma estátua de
mármore do Goutama Buda... Apenas sete dias atrás ele era uma pessoa
comum. Eknath chamou-o pelo nome e disse, ‘Eu vim vê-lo e para lhe
contar que aquilo foi um dispositivo. Você não vai morrer. Você ainda
tem uma vida muito longa. Você viverá quase o tanto que já viveu. Você
viveu apenas metade da vida, existem muitos anos para você viver. Esta
foi uma maneira de responder à sua pergunta.’
O homem disse, ‘Meu Deus, eu nunca iria
pensar que isto tinha sido uma maneira de responder à minha pergunta.’
Eknath disse, ‘Não havia outro jeito.
Qualquer coisa que eu tivesse respondido a você, as dúvidas iriam
permanecer. Um homem que consegue, por anos, fingir que é feliz, também
consegue mentir, dizendo que é iluminado. Eu queria lhe dar alguma
experiência sobre isto, de que isso não era uma representação teatral.
E esses sete dias lhe deram essa experiência. Você recebeu a resposta
ou não?’
O homem pulou da cama e se levantou– por
sete dias ele não havia deixado a cama – tocou os pés de Eknath e
disse, ‘Sua compaixão é grande. Você mentiu apenas porque a sua
compaixão é muito grande. Mas você respondeu à minha pergunta. Agora
não existe dúvida alguma. E eu não consigo ver qualquer dúvida possível
no futuro. Eu conheci o espaço no qual você tem vivido.’
Eknath disse, ‘Não interessa se você vai
morrer daqui a sete dias ou daqui a setenta anos. Uma vez que você se
torna consciente de que vai morrer, não interessa quando.’
A consciência da morte faz você viver a
vida tão totalmente e tão alegremente quanto possível. A morte não é
sua inimiga. Na verdade, ela é um convite para você viver intensamente,
totalmente, para espremer e desfrutar toda gota do sumo de cada
momento. A morte é um tremendo desafio e convite. Sem a morte não
haveria nem Goutama Buda, nem Jesus, nem Lao Tzu, nem Tilopa. Não
haveria nem Kabir, nem Raidas, nem Mansoor, nem Sarmad.
É a morte e a consciência dela que faz
você viver tão totalmente, tão profundamente e tão conscientemente
quanto possível. Antes que a morte bata em sua porta, você deveria ser
capaz de ver a vida eterna dentro de si. Então não haveria morte
alguma; a morte é uma ficção. Ela é uma realidade apenas para aqueles
que não viveram, não viveram em sua completude, em sua inteireza.
Para aqueles que viveram, não existe
morte.
É apenas uma mudança – apenas uma
mudança de casa. (...)
O homem que conhece a si mesmo sabe que
a morte é apenas uma mudança de casa. Aceitação não é a palavra certa,
mas não existe outra palavra; essa é a dificuldade.
Eu diria, Chintan, desfrute!
Faça com que todos esses dias sejam uma
celebração.
E se você puder fazer com que todos
esses dias sejam uma celebração, irá descobrir que a morte é uma
ficção. Esses dias de celebração, meditação, silêncio, alegria e amor
irão criar em você a capacidade de morrer conscientemente. E aquele que
morre conscientemente sabe que a morte nada mais é que uma mudança de
casa. E é sempre para uma casa melhor, porque a vida sempre caminha
para cima; ela é um processo evolutivo. (...)
Tudo que é, é belo. E pode ser mais belo
– não há limite para a evolução. Particularmente para a consciência não
há limite; ela pode ir além mesmo de Goutama Buda, além de Bodhidharma,
além de todos as grandes pessoas despertas do passado, porque a
consciência não tem limite. Ela é tão vasta quanto é o céu, quanto é o
universo inteiro.
Chintan, aceite com alegria, com dança e
canto.
Agora, uma pequena piada para que você
não saia daqui com seriedade na face. Este templo acredita no riso e eu
quero que todo mundo que vem aqui, quando se for, vá rindo. Mesmo no
caminho, quando se lembrar, dê uma risadinha. De noite, no meio da
noite, quando se lembrar – uma boa risada.
Uma boa risada é a maior das preces.
Um garotinho num piquenique afastou-se
de sua família e percebeu de repente que estava perdido e a noite
estava chegando. Após correr por todos os lados e gritar, num momento
ele ficou muito amedrontado e ajoelhou-se para rezar com as mãos para o
alto.
‘Querido Senhor,’ ele disse, ‘por favor
ajude-me a encontrar minha mãe e meu pai e eu prometo que não vou mais
bater em minha irmã.’
Exatamente naquele momento, um pássaro
voava sobre sua cabeça e soltou uma titica justamente em suas mãos
esticadas para o alto. O garoto examinou aquilo, olhou para o céu e
disse, ‘Senhor, não me dê essa titica, eu realmente estou perdido.’
Todo mundo realmente está perdido.
Poucos encontraram suas casas. Mas a sua peregrinação em busca de sua
casa não deve ser séria, nem triste, nem pesada; ela deve ser cheia de
risos, canções e danças. Se você puder encontrar a sua casa dançando e
rindo, essa é a verdadeira busca. Com tristeza e seriedade é provável
que você encontre algum cemitério, não a sua casa. Nós precisamos de
pessoas que sejam buscadoras, mas não sérias. Esse tipo de busca, com
seriedade e tristeza, não leva ninguém a lugar algum. “
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