Se um homem der um passo que seja, ele terá que deixar o
pedaço da terra sobre o qual ele estava em pé. Somente assim ele poderá
ir adiante. Não haverá qualquer progresso neste mundo se nós não
quisermos abrir mão de alguma coisa. Sem sacrificar-se você não
conseguirá dar nem mesmo um passo. Se as suas mãos estão cheias de
lama, de seixos e de pedras e você quer diamantes, você terá que
abandonar as pedras. Para agarrar o objeto desejado, as suas mãos
deverão estar vazias. Você deverá deixar as coisas inúteis.
Não tenha medo: eu
não lhe direi para renunciar à sua riqueza, mesmo porque ninguém tem
riqueza alguma, ninguém mesmo. Neste mundo, até o mais rico dos homens
é um mendigo. Ninguém tem riqueza.
Existem dois tipos
de mendigos: um é o mendigo pobre e o outro é o mendigo rico, mas ambos
são mendigos. Até agora, eu nunca vi um homem rico. Existem muitas
pessoas que possuem dinheiro, mas elas não são ricas, elas também estão
na corrida para agarrar o máximo que elas puderem, do mesmo jeito como
faz o mais pobre dentre os homens pobres. Como um pedinte que segura
tudo o que tiver com as mãos bem apertadas, também o homem que tem o
maior dos cofres segura com as mãos apertadas tudo o que ele tiver. A
avareza deles é a mesma e assim a pobreza deles também é a mesma.
Você não tem riqueza. Ninguém a tem. Por isso eu não insisto que você
tenha que abandoná-la. Como você pode deixar alguma coisa que você não
tem? Eu não lhe digo para desistir da sua vida - você nem mesmo tem
isso. Como você pode ter alguma coisa, se nem mesmo tem consciência
dela? E a cada momento você fica tremendo de medo da morte. Se você
fosse a própria vida, por que você estaria com medo da morte?
A vida não tem morte alguma. Como a vida pode tornar-se morte? Mas você
está tremendo de medo da morte. A cada momento a morte está rondando
você. Você está tentando se salvar por qualquer caminho
possível, para que você não desapareça, para que você não morra, para
que você não chegue a um fim. Mesmo a vida, você não a tem. É por isso
que eu não irei lhe pedir para desistir da sua vida. Como você pode dar
alguma coisa que você não tem?
Eu só irei pedir
aquilo que você tiver. E eu irei pedir aquilo que todos têm. Assim como
eu disse que a busca de todo mundo é por alegria, também existe algo
que todos têm em abundância: o sofrimento. Você tem uma quantidade
suficiente de sofrimento, mais do que você precisa. Por muitas vidas
você nada mais tem colecionado a não ser sofrimentos. Você colecionou
pilhas disso. Mesmo o monte Everest parecerá pequeno se for comparado
com as pilhas de problemas que você tem colecionado. Esse é o trabalho
de suas muitas vidas; você nada tem ganho, exceto problemas. Mesmo
agora você os está ganhando.
Eu gostaria que você largasse
seus problemas, renunciasse aos seus problemas. Ninguém jamais pediu os
seus problemas, mas eu estou pedindo. E se você puder desistir de seus
problemas, aí o caminho para a alegria poderá ser aberto. E se você
conseguir abandonar os seus problemas, você irá perceber que aquilo que
você pensava ser problema nada mais era que ilusão. E os seus problemas
não o estavam segurando; você é que os estava segurando. Mas uma vez
que você os deixe ir, você irá saber então quem estava segurando quem.
Você está sempre
perguntando como conseguir livrar-se do sofrimento. Perguntando assim,
parece que o sofrimento o está segurando e você quer livrar-se dele. Se
o sofrimento estivesse lhe segurando, então não seria possível você se
livrar dele, porque a posse não estaria em suas mãos, mas nas mãos do
sofrimento. Você seria impotente. E se depois de tantas vidas você
ainda não conseguiu tornar-se livre, então como conseguir tornar-se
livre agora?
Eu digo a você que o
sofrimento não o está segurando; você é que está segurando o
sofrimento. E se você puder fazer uns experimentos, aceitando o que eu
estou dizendo, você irá compreender por si mesmo. E não apenas você
compreenderá isso, mas você irá experienciar uma entrega; você saberá
como o sofrimento pode ser abandonado. E quando tornar-se bom na arte
de abandonar o sofrimento, você irá perceber o que estava arrastando
consigo. E ninguém, a não ser você, era responsável por isso. Por
qualquer coisa que você tenha experienciado como sofrimento, nenhuma
outra pessoa pode ser responsabilizada. Esse era o seu desejo: você
queria sofrer. Tudo o que nós desejarmos será permitido. E tudo o que
você é, é o fruto dos seus desejos. Nem Deus é responsável, nem a
sorte; ninguém tem motivo algum para lhe causar problemas.
A verdade é que a
existência está sempre querendo fazer você ficar alegre. Toda essa
existência quer que a sua vida se torne um festival... porque quando
você está infeliz, você também sai atirando infelicidade por toda a sua
volta. Quando você está infeliz, o mau cheiro de suas feridas alcança
toda a existência. E quando você está infeliz, a existência também
sente dor. Todo esse mundo sente dor quando você está infeliz e sente
alegria quando você está alegre. A existência não deseja que você deva
ser infeliz. Isso seria suicídio para a própria existência. Mas você
está infeliz e para se tornar infeliz você teve que fazer toda sorte de
arranjos. E enquanto isso não for destruído, você não será capaz de
abrir os seus olhos para a felicidade.
Quais são os seus
arranjos? Que arranjo o homem faz para estocar os seus problemas? Como
ele os coleciona? Compreenda isso um pouco e talvez fique mais fácil
para você deixá-los.
Uma criancinha quer
chorar. Os psicólogos dizem que a ação de chorar da criança é a ação de
vomitar. Sempre que uma tensão cresce dentro de uma criança, ela, ao
chorar, atira para fora as suas tensões. Você foi uma criancinha. Uma
criancinha está com fome e não estão lhe dando o leite na hora certa. É
por isso que ela está chorando, é porque ela encheu-se de tensão. E
isso é necessário para liberar a sua tensão para fora. Ela irá chorar,
a tensão será liberada e ela se sentirá mais leve.
Mas nós ensinamos a
criança a não chorar. Nós tentamos todas as maneiras para impedi-la de
chorar. Nós colocamos brinquedos em suas mãos para que ela se esqueça;
nós colocamos alguma coisa artificial em sua boca, ou colocamos o seu
polegar em sua boca de modo que ela confunda isso com o seio de sua mãe
e esqueça da fome. Nós começamos a balançá-lo para lá e para cá para
que sua atenção se disperse e ela não chore. Nós tentamos tudo para não
deixá-la chorar. Aquela tensão que poderia ter sido liberada pelo
choro, não é liberada e vai sendo guardada. Desse jeito nós deixamos
que isso vá se acumulando. Quem sabe quantas dores e angústias cada
pessoa tem acumulado? Ela senta-se sobre essa coleção empilhada.
Quem sabe quantas
tensões você acumulou? Você não tem chorado nem dado gargalhadas com
seu coração totalmente presente. E porque você não chorou, alguma coisa
ficou presa dentro de você. Você não tem ficado totalmente com raiva,
nem tem perdoado completamente alguém. Você tornou-se uma pessoa pela
metade. Os seus ramos querem se abrir mas eles não são capazes disto.
As folhas querem brotar para todos os lados, mas elas não são capazes
disto. A sua árvore ficou atrofiada. O nome dessa dor acumulada , dessa
dor não liberada, é inferno. E você segue arrastando esse inferno ao
seu redor.
Eu o chamei aqui
para que o seu inferno possa ser jogado fora, e você pode jogá-lo
fora. Neste Campo de Meditação você deve tornar-se como uma
criancinha. Você deve esquecer que foi aculturado, que foi muito
educado, que você ocupa uma posição elevada, que você conseguiu
riquezas, que você é respeitado na cidade. Abandone tudo isso. Torne-se
como um bebê recém-nascido, que não tem qualquer reputação, não tem
educação, nem posição, nem riqueza, nem qualquer auto-respeito. Se você
quiser salvar a sua estima, a sua posição, então, por favor saia daqui
o mais rápido possível, e nem mesmo olhe para trás. Eu nada tenho a
fazer com o você ou com o seu auto-respeito, conhecimentos, reputação.
Para sua segurança, vá embora, não fique aqui.
Eu estou aqui para
aqueles que são capazes de tornarem-se simples como uma criança, e
somente assim eu posso fazer alguma coisa. Porque somente às crianças
pode-se ensinar alguma coisa, somente as crianças podem ser mudadas, e
uma revolução pode ocorrer apenas nas vidas das crianças.
Nos experimentos de
meditação que acontecerão aqui, vomite, atire para fora todo sofrimento
que você tiver em seu coração. Se você tiver raiva, atire-a
para o céu, se você tiver violência, atire-a para o céu. Você não tem
que ser violento com ninguém, simplesmente libere a violência para o
céu aberto. Problemas, dores, culpas; qualquer coisa que estiver dentro
tem que ser jogada para fora. Você tem que atirá-las tão totalmente
quanto for possível. Use toda a sua energia de modo que
qualquer problema que estiver dentro seja trazido a consciência.
Você deve
compreender que enquanto você não ficar consciente da dor escondida no
seu inconsciente, ela não o deixará, ela permanecerá escondida.
Exponha-a, traga-a para a consciência. Puxe-a para fora, onde quer que
ela esteja escondida na escuridão interna, traga-a para a luz.
Algumas coisas
morrem com a luz. Se você puxar para fora da terra as raízes de uma
árvore, elas morrerão. Elas necessitam da escuridão, elas vivem na
escuridão, na escuridão está a vida delas. Assim como as raízes, o
sofrimento também vive na escuridão. Exponha os seus sofrimentos e você
descobrirá, eles morreram. Se você continuar escondendo-os dentro de
si, eles irão permanecer seus companheiros constantes por muitas vidas.
A infelicidade tem que ser expressada.
Compreenda uma coisa
mais: foi de fora que você pegou as dores e as trouxe para dentro de
si. Por favor, volte com elas para o lado de fora. A dor não é interna;
todas as dores são trazidas do lado de fora.
Quando você nasceu,
qual era a natureza do seu ser? Não havia dor: a dor foi trazida de
fora. Se um homem o maltratou e fez você ficar infeliz, o maltrato foi
trazido de fora. Agora, você irá acumular essa dor do lado de dentro,
deixará que ela cresça, irá reprimi-la, assim ela se expandirá e
envenenará toda e qualquer célula do seu corpo. Você se tornará um
homem infeliz. Você traz a dor de fora. Ela não está em sua natureza.
É por isso que eu
lhe digo que você pode livrar-se da dor. Você não consegue se livrar da
natureza, daquilo que é a fonte do sentir. Você pode livrar-se apenas
daquilo que não é seu. Não há jeito de você livrar-se daquilo que é seu.
A dor tem que ser
jogada fora. Durante esses próximos dias, quanto mais você puder jogar,
jogue. E na medida em que você for jogando fora, irá crescer a sua
compreensão que isso era uma loucura estranha que você estava
cultivando. Isso poderia ter sido jogado fora naturalmente, estava em
suas mãos, mas, desnecessariamente, você se bloqueou. E a segunda
coisa: na medida que você joga fora a dor, que a envia de volta para
fora, de onde ela veio, a alegria começa a brotar dentro de você.
Foto de Gabriel Oliveira
A alegria está
dentro. Ninguém a traz de fora. Ela não vem de fora, ela é a sua
natureza, ela é você. Ela está escondida dentro, ela é a sua alma.
Se for jogado fora
esse lixo que veio de fora e que tem sido acumulado, então a alma
interna começará a expandir, começará a crescer. Você começa a ver a
sua luz e a ouvir a sua dança, você começa a mergulhar na música mais
interna. Mas isso só acontece se você liberar o lixo de modo que o céu
interior possa se estabelecer, algum espaço criado. Então aquele espaço
que está escondido dentro pode expandir-se.
A dor deve ser
expressada para que aquela alegria possa expandir-se internamente. E
quando a alegria começa a expandir-se, é necessário compreender também
a segunda coisa. Se você reprimir a dor, ela cresce. Se a dor é
reprimida ela cresce, se você a expressar, ela diminui. Com a alegria
ocorre totalmente o oposto: se você reprimir a alegria, ela diminui; se
você a expressar ela aumenta.
Assim, a primeira
coisa é isso: que você tem que jogar fora a dor, porque ela diminui
sendo expressada. Não a reprima, pois ela cresce com a repressão. E
quando você tiver a primeira visão da alegria que vem de dentro, então
expresse-a... porque quanto mais você expressar a alegria, mais ela
aumenta internamente e camadas frescas começam a crescer.
Isso é exatamente
igual, quando você fica tirando água de um poço: nova água de fontes
frescas encherá o poço. A fonte da alegria está dentro, assim não tenha
medo de que ela irá diminuir por você expressá-la. A dor fica reduzida
ao expressá-la, porque a sua fonte não está dentro. Ela foi trazida de
fora, assim se você a expressar, ela ficará reduzida.
Se você quiser
enganchar-se na dor, então tenha isso em sua mente: nunca jogue-a fora.
Se você quiser aumentar o seu sofrimento - e isso é o que você está
fazendo e parece que muitas pessoas estão fazendo - então nunca
expresse seu sofrimento, nunca manifeste-o. Se lágrimas estiverem
jorrando, então engula-as, se você sentir raiva, reprima isso. Se
qualquer problema estiver brotando internamente, reprima isso. Ele irá
aumentar. Você se tornará um grande inferno.
Se você quiser
reduzir a dor, então deixe-a acontecer; se você quiser aumentar a
alegria, então deixe-a acontecer, porque a alegria está dentro e novas
camadas continuarão se revelando. E na medida em que você segue
deixando a alegria acontecer você começará a ter mais e mais vislumbres
de pura alegria.
A alegria aumenta ao
ser compartilhada.
A dor tem que ser
liberada. E quando você começa a ter vislumbres de alegria, eles também
têm que ser liberados. Você tem que se tornar como uma criancinha, que
não tem qualquer preocupação a respeito do passado, nem qualquer
questão a respeito do futuro, que nem mesmo sabe o que os outros estão
pensando a seu respeito. Somente então acontecerá aquilo para o que eu
o chamei aqui, e aquela jornada na qual eu gostaria que você fosse bem
suavemente.
Um pouco de coragem
é requerida, e então, os tesouros de alegria não estarão
Foto de Gabriel Oliveira
longe. Um pouco de coragem é requerida e você poderá abandonar o seu
inferno - exatamente como um homem que se sujou na rua e volta para
casa para tomar um banho e a sujeira é lavada. Da mesma maneira, a
meditação é o banho e a dor é a sujeira. Assim como depois do banho a
sujeira foi lavada e você se sente fresco, da mesma forma você terá um
vislumbre, sentindo dentro de si a felicidade e alegria que é a sua
natureza."
OSHO - The Sadhana Sutra - discourse nº 1
tradução: Sw.Bodhi Champak
fonte: revista Osho Times, nov/1995.
Série de palestras num Campo de Meditação ainda não publicada em forma
de livro.
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